sábado, 23 de abril de 2016

O encontro com a leitura

Ler nos faz ver mais longe
Hoje tem homenagem à leitura. Comemoramos o Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral, instituído pela Unesco em fins do século passado como tributo a Miguel de Cervantes, William Shakespeare e Inca Gasilaso de la Vega, que morreram nessa data, e ainda a autores como Maurice Druon e Vladimir Nabokov, que nasceram nesse mesmo dia.

Como autores acadêmicos, nosso primeiro encontro talvez não seja com a orientadora, nem mesmo com o campo ou com os participantes da pesquisa. É, antes, um encontro com a leitura. Há autores que vieram antes de nós e que nos inspiram a enxergar mais longe. E esse encontro só pode ser mediado pela palavra — pelo prazer da leitura, da descoberta e da inquietação.

O lugar de leitor é ocupado por todo acadêmico, não importa que função ele exerce nessa comunidade: sejamos estudantes, pesquisadores ou professores, somos também, permanentemente, encantados pelo texto. Ser acadêmico é ser leitor.

O livreiro, a autora e as palavras escondidas
Chiquinho é famoso livreiro na Universidade de Brasília. Sua carreira já se arredonda pelas quatro décadas, mas a livraria mesmo está na universidade faz quase trinta anos. Do lugar de quem exerce a “dádiva de trabalhar com livro” e mantém afeto e amizade com leitores e autores, Chiquinho nos lembra a importância da leitura para o personagem acadêmico — afinal, “numa acidentalidade você acha um livro que vai mudar o destino de um trabalho seu, que muda seu destino bibliográfico”... e sua vida.

Por isso hoje celebramos a leitura, o livreiro, o autor — esse encontro prazeroso, que, nas palavras de Chiquinho, só pode se resumir no sentimento de “gratidão pelos livros”. Boas leituras!





domingo, 10 de abril de 2016

Autoplágio, o fantasma

O tema do post de hoje não existe. É um fantasma. Simples assim: autoplágio é uma contradição, um conceito paradoxal pela própria natureza do fenômeno que ele nomeia: se plagiar é apropriar-se indevidamente de palavras alheias, não faz muito sentido a ideia de plagiar a si mesmo. Claro que esse é um problema conceitual, mas, como todo fantasma, isso não quer dizer que o autoplágio não cause espanto — nesse caso, um espanto ético com a autorrepetição.

Por que o autoplágio ofende, se ele sequer existe? Por preocupações éticas: o desrespeito ao tempo de quem se vê lendo mais do mesmo enquanto poderia estar lidando com artigos originais ou dados novos; e, especialmente, o uso oportunista da repetição na corrida por métricas, num paradigma de avaliação quantitativa em que é mais beneficiado quem mais produz. A duplicação de si tem, nesse caso, motivações desleais e efeitos de engordamento despropositado da literatura — um argumento sustentado, aliás, por essa ferramenta ao justificar a necessidade de varreduras para detectar autoplágios.

Em certos cenários, porém, a autorrepetição é necessária e até desejada. São casos em que há um propósito argumentativo — novos contextos, mudanças no argumento ou aprimoramento de ideias de um autor requerem a retomada do já-dito em um outro texto. Ideias e palavras se repetem, mas não há clones despropositados de si. Nem sempre é fácil avaliar a fronteira entre repetição necessária ou conveniente; talvez isso deva ser observado caso a caso, como já apontaram editores de periódico preocupados com o limite entre semelhança e plágio.

Espelho refletindo vaso (CGS, 2003)
Para finalizarmos, uma dica de ouro e um cuidado especial. A dica: na dúvida, sempre cite. A transparência é a melhor regra de sobrevivência na comunicação acadêmica. Se for preciso repetir-se, coloque uma nota de rodapé evidenciando sua reflexão anterior. E o cuidado: se aquilo que se pretende dizer novamente já foi publicado por um periódico, esse periódico detém os direitos autorais da publicação. O repeteco do artigo, mesmo que da mesma autoria, será limitado legalmente.




Muitas das ideias discutidas neste blog já foram propostas em linguagem de livro, em Plágio: palavras escondidas, mas pode confiar: este não é um autoplágio. E por falar em repetições aceitáveis, no podcast de hoje, discutimos dois casos em que a autorrepetição é bem-vinda na comunicação acadêmica. Ouça e compartilhe suas ideias conosco. Você pode nos escrever em palavrasescondidas@anis.org.br.

Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 3 de abril de 2016

A paráfrase malfeita e
o plágio-pastiche

Lembra-se desta definição?

Plágio: apropriação indevida e não autorizada de criação literária, que viola o direito de atribuição de crédito do autor e a expectativa de sinceridade no leitor (Diniz; Terra, 2014, p. 23).
Falamos desse conceito, proposto por Debora Diniz e Ana Terra, em um post passado, e já dirigimos nossos holofotes também para a desilusão que o plágio causa no leitor — essa quebra na expectativa de sinceridade da leitura e, por consequência, na ciência. Hoje damos mais um passo em nosso percurso pelo tema do plágio e aprofundamos sua descrição. Todo plágio é igual? Certamente não.

Há pelo menos duas formas como o desajeito do plágio se manifesta. A primeira é ingênua e vulgar: é o plágio-cópia, Ctrl C + Ctrl V, de que tratamos no último post. Seja por esquecimento de aspas, seja por ausência de expectativa de ser lido, o plagiador mantém o texto original, mudando apenas a assinatura. E é claro que sua mentira terá pernas curtíssimas: qualquer leitor, humano ou programa caça-plágio, poderá rapidamente identificar a cópia.

A segunda é, digamos, mais sofisticada. Chamamos essa forma de plágio-pastiche. Antes, porém, cabe uma palavrinha sobre o que é pastiche: Debora Diniz e Ana Terra tomaram esse conceito do mundo das artes, onde a imitação criativa dá boas-vindas às releituras, às paródias ou ao apuro de uma técnica. Você seguramente conhece a Mona Lisa, tela de Leonardo da Vinci do início do século XVI. E talvez já tenha visto também esta de Fernando Botero, de 1978:

Botero plagiou Da Vinci? Claro que não!
Não vale acusar Botero de plágio, certo? Na arte, o movimento de empréstimos entre obras é impulso, inspiração, aprofundamento — houve um estudo de técnica de volume para engordar a Gioconda. Isso não quer dizer que não exista plágio no campo das artes; nosso ponto, aqui, é que as fronteiras de empréstimo criativo na escrita acadêmica são bem menos elásticas. Não podemos deixar de explicitar nossas rotas de inspiração em ciência. Muito menos fazer pastiche de texto. Mas como o plágio-pastiche se materializa?

E boa paráfrase é sinal de escrita autoral :)
Pelo disfarce da cópia: pequenas trocas de palavra, inversões de ordem da frase, substituição de conectivos — uma paráfrase tosca. O plágio-pastiche dá um pouco mais de trabalho aos softwares e leitores, mas repetimos: se perna de plagiador é curta, olhos de bom leitor são de lince.

Para conhecer melhor esse conceito, leia Plágio: palavras escondidas. Saiba mais sobre o livro aqui.


No podcast de hoje, aprofundamos a ideia do plágio-pastiche. Como ele acontece?

Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 27 de março de 2016

As teclas e o plágio-cópia

E você? Já sentiu o faro do déjà vu?
Estou lendo um texto, avanço em linhas, parágrafos, páginas, até que… opa! O irresistível faro do déjà-vu me faz parar e levantar a cabeça. Já li isso antes? Onde? Quando? No tremor da suspeita, estendo a pausa: o texto então se submete a outra leitura, aquela de um software caça-plágio. Ou, talvez pelo mesmo mecanismo de que trata este post, seleciono um trecho, copio e colo, e faço uma busca simples na internet.

O veredito não se demora: se encontrado o mesmo texto, porém com outra assinatura, é porque estou diante de um caso de cópia indevida. Um caso de plágio-cópia, como foi chamada essa infração textual no livro Plágio: palavras escondidas. Eu, leitora, me desiludo ao perceber frustrada minha expectativa de sinceridade autoral. Ele, plagiador, tem pernas curtas como a mentira. Tem dedos ágeis sobre as teclas. Mas não tem voz.

Evite essa perigosa equação: use aspas
Ctrl C + Ctrl V é a metáfora digital mais frequente para esse plágio que se nutre da cópia simples. Não há tentativa de dissimulação, não há diferenças entre os textos. O clone textual seria perfeito, não fosse por um detalhe: o crédito de autoria aparecer com nome diverso.

O plágio-cópia pode parecer tolo pela obviedade do flagrante, mas nem por isso é fenômeno raro. Ele angustia professoras, atormenta revisoras e editoras de periódico. Já gerou retratações (esta, por exemplo) e recentemente inspirou uma controvérsia entre docentes de universidades brasileiras. Nossa recomendação: fuja do atalho das teclas. Domine as regras de citação e paráfrase e se garanta em sua voz autêntica de autor. Se você tem dúvidas sobre esses dois mecanismos da escrita acadêmica, escreva para nós. Faça também um passeio por aqui: veja nossos posts anteriores.

No podcast de hoje, falamos desse sujeito emudecido que faz plágio-cópia. Quem é ele e quais seriam suas desrazões?



Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 20 de março de 2016

Apud, a preguiça fossilizada

Você já brincou de telefone sem fio? Se sim (e esperamos que sim!), sabe que a graça é quando a mensagem chega corrompida ao final, depois de passar por vários intermediários. O efeito mexeriqueiro, de fofoca aumentada ou alterada, é bem-vindo na brincadeira, mas certamente não na comunicação acadêmica. E onde está o risco de ele aparecer? No uso do apud — que, se nossa retórica for boa, até o fim deste post você estará convencido a abolir.

Catherine Stones' Chinese whispers (Helen Harrop, 2009)
A palavra apud é uma preposição da língua latina. Significa “perto de”, “adjacente a”, “em”. Na escrita acadêmica, denota algo como “retirado da obra de”. Então, se cito Silva apud Soares, é porque cito Silva conforme ele foi citado por Soares. Menciono Silva indiretamente — na verdade, apenas li Soares, que por sua vez foi quem de fato leu e citou Silva. É uma citação de segunda mão. Nos termos da ABNT (na NBR 10:520, de 2002), uma “citação direta ou indireta de um texto em que não se teve acesso ao original”.

A impossibilidade de encontrar o original é o que justificaria o uso do apud — algo relativizado por este editorial, afinal, se o autor intermediário pôde citar a fonte, é porque ela deve ser acessível de alguma maneira. E pensemos bem: neste mundo digital, de abundância de informações, de uma infinidade de obras traduzidas para o português, fonte inacessível só pode ser um caso de raridade.

Quem usa apud em tempos atuais, especialmente para autores reconhecidos e amplamente disponíveis (os Foucaults, Hawkings, Hobsbawms e tantos mais da biblioteca acadêmica), revela uma postura suspeita: a preguiça de ler, de interpretar, de pensar. E corre um risco danado ao confiar numa leitura intermediária: o de repetir erros de transcrição, na citação literal; ou equívocos de interpretação, na paráfrase. Cita por tabela, engana-se também por tabela.

Melhor seguir a diretriz do CNPq: “quando estiver descrevendo o trabalho de outros, o autor não deve confiar em resumo secundário desse trabalho, o que pode levar a uma descrição falha do trabalho citado”. E o conselho arremata: “sempre que possível consultar a literatura original”. Assim, pedimos licença para sentenciar: ao apud, resta o rótulo de expressão fossilizada. E, se ele é tanto fóssil como perigosa expressão de preguiça, que tal deixá-lo noutro lugar? Nossa sugestão é longe de nossos textos — no cantinho do desuso e do esquecimento.

No podcast de hoje, falamos um pouco mais sobre o apud e seus riscos, inclusive o de plágio. Compartilhe conosco suas impressões ou opiniões. Adoraremos ouvi-las.


Leia aqui a transcrição do áudio.
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