A conversa de hoje é
sobre o livro “Carta de uma orientadora: o primeiro projeto de pesquisa” de
Debora Diniz. Eu diria que este pequeno livro deveria ser considerado
indispensável para as jovens pesquisadoras que iniciarão o percurso do
pensamento sobre seus primeiros escritos na vida acadêmica. A ideia de
primeiros escritos pode ser alargada a depender de onde estamos: a jovem
pesquisadora enfrentará desafios não só momento do planejamento ou escrita da monografia,
mas também poderão surgir inseguranças no momento da elaboração do projeto de
pesquisa no percurso do mestrado.
Passearei por aqui
fazendo uso desse bonito livro por mais de um domingo. O qualificador pequeno
para este texto de Debora Diniz é mesmo literal – são 87 páginas para serem
lidas certamente mais de uma vez. A primeira leitura deveria ser feita de uma
vez só, sentada ou deitada em lugar confortável, mas seguida de nova leitura –
dessa vez lenta e atenta aos conselhos da orientadora-costureira. A alegoria da
costureira não é minha, mas de Diniz, que aproxima o ofício da orientação como
um trabalho artesanal entre orientanda e orientadora – ambas parceiras do
encontro intelectual, onde a experiência de uma é sempre renovada durante a
criação intelectual da outra.
O livro apresenta dicas
valiosas para jovens pesquisadoras que terão que se aproximar da pessoa que
escolhida ou desejada como orientadora. A primeira delas é: se prepare antes do
primeiro encontro com sua nova orientadora. Mas o que deveria ser isso de “estar
preparada”? A avaliação sobre preparação
certamente variará, pois temos desafios, fortalezas e inseguranças deferentes.
Mas há algumas medidas mínimas que toda estudante deveria tomar antes do primeiro
encontro com a figura da orientadora:
a.
Olhe o lattes de sua possível orientadora – leia o que ele ou ela já
escreveu, e veja se deseja se aproximar de temas dos quais ela trabalha. Não
vale dizer que já a conhece por ter acompanhado uma disciplina ou assistido uma
palestra. É importante ler os últimos artigos ou livros publicados, saber quais
as pesquisas em que ela ou ele está envolvido. Talvez você admire muito uma
professora, mas ela não é especialista no tema que deseja pesquisar.
b.
Converse com colegas que já foram orientadas por quem você gostaria que
fosse sua orientadora. Há diferentes estilos de orientação – nenhum está mais
certo ou errado. Mas certamente há estilos em que nos sentimos mais felizes. Há
orientadores que exigirão reuniões periódicas, há orientadoras que deixarão as
estudantes mais livres para escolher a bibliografia, há os tipos preferem ler
capítulos separados, mas há os que preferem revisar a monografia inteira. Esses
são apenas exemplos, mas não custa perguntar para diferentes colegas como
trabalha a professora que pensa escolher para lhe acompanhar durante a escrita
de monografia ou no mestrado.
c.
Depois de passar pelas experiências que escrevi acima, chegará o momento
do primeiro encontro com a orientadora. Debora Diniz alerta as futuras
orientandas para nunca irem de mãos vazias: liste temas de interesse, pense em
palavras-chaves para descrever seus desejos intelectuais. Faça uma pequena
revisão da literatura sobre esses temas, Diniz diz que a jovem estudante
deveria ser uma “turista textual”, ou seja, deve passear por textos sem ainda
se preocupar em estudá-los – isso lhe
permitirá rascunhar um problema de pesquisa que deseja enfrentar. Além disso,
lhe dará instrumentos para dizer o que não deseja fazer. Debora Diniz fala que
pode ser muito interessante ter um título funcional, ou seja, “uma frase curta
que representará o tema de sua pesquisa” (:29).
O encontro da
orientação pode se tornar um encontro afetivo entre duas pessoas que se
respeitam e que possuem interesses comuns, mas é acima de tudo um encontro intelectual,
onde os interesses de pesquisa são transformados em problemas de pesquisa, no
qual haverá uma metodologia para cumprir os objetivos propostos. O livro de
Debora Diniz não deve ser confundido com um tratado de metodologia, mas ter um
título funcional, escrever sobre o problema de pesquisa é parte fundamental do
encontro de orientação. Falarei sobre isso em um próximo post.
Diniz, Debora. Carta de uma
orientadora: o primeiro projeto de pesquisa. Brasília: LetrasLivres, 2013.
