domingo, 29 de janeiro de 2017

Primeiro encontro com a orientadora

A conversa de hoje é sobre o livro “Carta de uma orientadora: o primeiro projeto de pesquisa” de Debora Diniz. Eu diria que este pequeno livro deveria ser considerado indispensável para as jovens pesquisadoras que iniciarão o percurso do pensamento sobre seus primeiros escritos na vida acadêmica. A ideia de primeiros escritos pode ser alargada a depender de onde estamos: a jovem pesquisadora enfrentará desafios não só momento do planejamento ou escrita da monografia, mas também poderão surgir inseguranças no momento da elaboração do projeto de pesquisa no percurso do mestrado.
Passearei por aqui fazendo uso desse bonito livro por mais de um domingo. O qualificador pequeno para este texto de Debora Diniz é mesmo literal – são 87 páginas para serem lidas certamente mais de uma vez. A primeira leitura deveria ser feita de uma vez só, sentada ou deitada em lugar confortável, mas seguida de nova leitura – dessa vez lenta e atenta aos conselhos da orientadora-costureira. A alegoria da costureira não é minha, mas de Diniz, que aproxima o ofício da orientação como um trabalho artesanal entre orientanda e orientadora – ambas parceiras do encontro intelectual, onde a experiência de uma é sempre renovada durante a criação intelectual da outra.
O livro apresenta dicas valiosas para jovens pesquisadoras que terão que se aproximar da pessoa que escolhida ou desejada como orientadora. A primeira delas é: se prepare antes do primeiro encontro com sua nova orientadora. Mas o que deveria ser isso de “estar preparada”?  A avaliação sobre preparação certamente variará, pois temos desafios, fortalezas e inseguranças deferentes. Mas há algumas medidas mínimas que toda estudante deveria tomar antes do primeiro encontro com a figura da orientadora:
a.     Olhe o lattes de sua possível orientadora – leia o que ele ou ela já escreveu, e veja se deseja se aproximar de temas dos quais ela trabalha. Não vale dizer que já a conhece por ter acompanhado uma disciplina ou assistido uma palestra. É importante ler os últimos artigos ou livros publicados, saber quais as pesquisas em que ela ou ele está envolvido. Talvez você admire muito uma professora, mas ela não é especialista no tema que deseja pesquisar.
b.     Converse com colegas que já foram orientadas por quem você gostaria que fosse sua orientadora. Há diferentes estilos de orientação – nenhum está mais certo ou errado. Mas certamente há estilos em que nos sentimos mais felizes. Há orientadores que exigirão reuniões periódicas, há orientadoras que deixarão as estudantes mais livres para escolher a bibliografia, há os tipos preferem ler capítulos separados, mas há os que preferem revisar a monografia inteira. Esses são apenas exemplos, mas não custa perguntar para diferentes colegas como trabalha a professora que pensa escolher para lhe acompanhar durante a escrita de monografia ou no mestrado.
c.     Depois de passar pelas experiências que escrevi acima, chegará o momento do primeiro encontro com a orientadora. Debora Diniz alerta as futuras orientandas para nunca irem de mãos vazias: liste temas de interesse, pense em palavras-chaves para descrever seus desejos intelectuais. Faça uma pequena revisão da literatura sobre esses temas, Diniz diz que a jovem estudante deveria ser uma “turista textual”, ou seja, deve passear por textos sem ainda se preocupar em estudá-los  – isso lhe permitirá rascunhar um problema de pesquisa que deseja enfrentar. Além disso, lhe dará instrumentos para dizer o que não deseja fazer. Debora Diniz fala que pode ser muito interessante ter um título funcional, ou seja, “uma frase curta que representará o tema de sua pesquisa” (:29).

O encontro da orientação pode se tornar um encontro afetivo entre duas pessoas que se respeitam e que possuem interesses comuns, mas é acima de tudo um encontro intelectual, onde os interesses de pesquisa são transformados em problemas de pesquisa, no qual haverá uma metodologia para cumprir os objetivos propostos. O livro de Debora Diniz não deve ser confundido com um tratado de metodologia, mas ter um título funcional, escrever sobre o problema de pesquisa é parte fundamental do encontro de orientação. Falarei sobre isso em um próximo post.

Diniz, Debora. Carta de uma orientadora: o primeiro projeto de pesquisa. Brasília: LetrasLivres, 2013.


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