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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pra que serve a normalização bibliográfica?

E então você vai escrever um texto acadêmico e é orientado a usar as normas da ABNT, a Associação Brasileira de Normas Técnicas. Ou da APA (American Psychology Association), se escreve no campo da psicologia; ou ainda de Vancouver, se escreve no campo das ciências da saúde. Há ainda muitas outras normas, mas isso tanto faz para o tema deste post. O que nos inquieta aqui é: pra que servem essas normas? Por que temos de segui-las? Qual é a relevância delas?

Começamos pela negação: normalização bibliográfica não é burocracia da escrita, nem implicância de orientador obstinado, nem estética despretensiosa. Agora afirmamos: um texto de acordo com as convenções bibliográficas demonstra pertencimento à comunidade acadêmica — ao observar as convenções, o autor revela que sabe transitar pelas regras que orientam a comunicação. E demonstra, sobretudo, respeito a um dos princípios éticos mais delicados e importantes em ciência, o de reconhecimento e atribuição das fontes.

Citação literal em Plágio: palavras escondidas
Sabemos que, para avançar no conhecimento, subimos nos ombros dos gigantes que nos antecederam: pesquisamos a literatura, lemos autores que já enveredaram por nosso tema de pesquisa, e então traçamos nossa rota de aprofundamento. Citar e referenciar é a forma como se materializa em nossos textos esse reconhecimento de autores que vieram antes de nós. E as normas bibliográficas prescrevem justamente essa forma: indicam como devem aparecer as citações e as referências numa peça acadêmica. Essa padronização traz clareza e uniformidade à publicação, permite o acesso às informações em que nos baseamos em nossos textos e — algo muito importante — nos afasta do risco de plágio por não atribuição das fontes, ou mesmo por atribuição no formato inadequado (esquecimento das aspas em citação literal, por exemplo).

Sinta-se convidado a ouvir o podcast de hoje: o assunto é citação e referência, essa dupla regida pela normalização bibliográfica. E conte para nós suas inquietações sobre o tema.



Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Memória fotográfica pode justificar plágio?

Esta é uma história verídica, acontecida no finzinho dos anos 1990. Uma revista recebeu uma reclamação de um autor, que descobriu ter sido plagiado em um artigo publicado no periódico. Segundo o conselho editorial, os trechos copiados contemplavam “não apenas frases sem as devidas aspas mas parágrafos inteiros”; segundo o autor, o artigo era, quase em sua totalidade, uma colagem de palavras suas. O debate se instalou, e o pseudoautor acusado do malfeito enviou carta aos editores, em que explicava o ocorrido:

Quanto ao episódio em si (o aparente plágio por mim praticado), devo dizer que se trata de um inadvertido e aprofundado estudo que fiz do [título do livro], de [autor do livro], a tal ponto esmiuçado (e proveitoso para minha formação!) que prática e imperceptivelmente, acabei por decorar passagens inteiras do ensaio [...].
Eye-eye (Kimberly Brown-Azzarello, 2005)
Ao lado do descuido com as notas de leitura e do desconhecimento das regras de normalização, a memória fotográfica nos parece uma das alegações mais frequentes de quem se vê acusado de plágio. Mas dizer-se traído pela própria memória, infelizmente, não isenta ninguém de punição pela cópia indevida. No máximo, favorece uma hipótese inocente: a da não intencionalidade do ato, que não seria, portanto, uma fraude.

Muitos de nós temos um estilo de aprendizagem que as ciências cognitivas chamam de “aprendiz visual” — assimilamos com mais facilidade aquilo que captamos com os olhos; memorizamos a informação em imagem. Num raciocínio um pouco torto, há quem justifique que uma memória visual muito boa nos levaria eventualmente a achar que criamos algo, quando na verdade estamos apenas nos lembrando desse algo: uma espécie de criptomnésia, como a que teria acometido o pseudoautor do caso acima.

Culpar a memória pelo plágio acadêmico não nos parece uma justificativa inteligente. A memória não é tão fotográfica assim a ponto de nos fazer recitar, de cor, palavras, pontuações, trechos inteiros. A pesquisa diz que a memória fotográfica assim descrita sequer existe; se aparecem casos de memória prodigiosa por aí, é apenas como exceções que intrigam as neurociências.

Mas há uma razão ainda mais forte para a memória fotográfica não justificar o plágio. Um texto acadêmico é precedido de intensas horas de leitura e estudo, e localizar argumentos — mapear posições teóricas e achados empíricos entre autores — é uma habilidade preciosa. Por isso, não pode haver leituras ingênuas que serão repetidas despercebidamente na escrita. Quer uma dica para ajudar sua memória? Use softwares gerenciadores de bibliografia. Você os conhece?

O podcast de hoje provoca a tese da memória fotográfica como argumento para inocentar o plágio. É um trecho do quarto capítulo de Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra.



Leia aqui a transcrição do áudio.
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