domingo, 31 de janeiro de 2016

Infrações éticas na pesquisa e na publicação: por que distinguir

Da antropologia à física, irregularidades éticas assombram todos os campos de conhecimento acadêmico. Muito antes de ser posto em circulação, um medicamento passa por uma série de testes clínicos. Já imaginou se são descobertas fraudes nesses testes? Essa não é uma pergunta tão hipotética assim. As narrativas acadêmicas contemplam numerosos casos de desrespeito à integridade — estudos em que houve, por exemplo, fabricação (invenção) e falsificação (adulteração) de dados, gerando não apenas escândalos em ciência, mas também impactos à saúde e à vida de seres humanos.

Há regras éticas para a pesquisa e para a publicação
As infrações éticas se manifestam de variadas formas. Por isso, hoje vamos separar fenômenos: uma coisa é má-conduta em pesquisa, outra é má-conduta em publicação. Problemas éticos em pesquisa incluem, por exemplo, fabricação e falsificação de dados, descompromisso com o termo de consentimento, desrespeito aos melhores interesses dos participantes. Entre os problemas éticos em texto, estão paráfrases distorcidas, plágios, autorias fantasmas ou convidadas. Parece simples, mas não é uma distinção trivial: alguns autores e mesmo órgãos, como o Escritório de Integridade em Pesquisa (Office of Research Integrity), dos Estados Unidos, incluem o plágio entre as más-condutas em pesquisa, ao lado de fabricação e falsificação de dados.

E por que essa distinção é relevante? Porque nem sempre problemas na redação se resumem à matéria textual — um número indevidamente arredondado pode indicar problemas no método ou na análise —, por isso situar todos os desvios na publicação pode obscurecer equívocos anteriores à fase de escrita. Aliás, dados inventados ou manipulados podem aparecer antes mesmo de haver um artigo produzido, e isso não quer dizer que inexista a falha ética. Obviamente as infrações em pesquisa e em publicação podem estar relacionadas: se identificamos um plágio, por exemplo, imediatamente atentamos para a possibilidade de haver outros equívocos no estudo. Entretanto, não necessariamente todo desvio nas palavras, ou todo desvio na assinatura do texto, implica uma falha na pesquisa.

O podcast de hoje problematiza a circunscrição dos problemas éticos à publicação acadêmica. É um trecho do quinto capítulo de Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra.


Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Memória fotográfica pode justificar plágio?

Esta é uma história verídica, acontecida no finzinho dos anos 1990. Uma revista recebeu uma reclamação de um autor, que descobriu ter sido plagiado em um artigo publicado no periódico. Segundo o conselho editorial, os trechos copiados contemplavam “não apenas frases sem as devidas aspas mas parágrafos inteiros”; segundo o autor, o artigo era, quase em sua totalidade, uma colagem de palavras suas. O debate se instalou, e o pseudoautor acusado do malfeito enviou carta aos editores, em que explicava o ocorrido:

Quanto ao episódio em si (o aparente plágio por mim praticado), devo dizer que se trata de um inadvertido e aprofundado estudo que fiz do [título do livro], de [autor do livro], a tal ponto esmiuçado (e proveitoso para minha formação!) que prática e imperceptivelmente, acabei por decorar passagens inteiras do ensaio [...].
Eye-eye (Kimberly Brown-Azzarello, 2005)
Ao lado do descuido com as notas de leitura e do desconhecimento das regras de normalização, a memória fotográfica nos parece uma das alegações mais frequentes de quem se vê acusado de plágio. Mas dizer-se traído pela própria memória, infelizmente, não isenta ninguém de punição pela cópia indevida. No máximo, favorece uma hipótese inocente: a da não intencionalidade do ato, que não seria, portanto, uma fraude.

Muitos de nós temos um estilo de aprendizagem que as ciências cognitivas chamam de “aprendiz visual” — assimilamos com mais facilidade aquilo que captamos com os olhos; memorizamos a informação em imagem. Num raciocínio um pouco torto, há quem justifique que uma memória visual muito boa nos levaria eventualmente a achar que criamos algo, quando na verdade estamos apenas nos lembrando desse algo: uma espécie de criptomnésia, como a que teria acometido o pseudoautor do caso acima.

Culpar a memória pelo plágio acadêmico não nos parece uma justificativa inteligente. A memória não é tão fotográfica assim a ponto de nos fazer recitar, de cor, palavras, pontuações, trechos inteiros. A pesquisa diz que a memória fotográfica assim descrita sequer existe; se aparecem casos de memória prodigiosa por aí, é apenas como exceções que intrigam as neurociências.

Mas há uma razão ainda mais forte para a memória fotográfica não justificar o plágio. Um texto acadêmico é precedido de intensas horas de leitura e estudo, e localizar argumentos — mapear posições teóricas e achados empíricos entre autores — é uma habilidade preciosa. Por isso, não pode haver leituras ingênuas que serão repetidas despercebidamente na escrita. Quer uma dica para ajudar sua memória? Use softwares gerenciadores de bibliografia. Você os conhece?

O podcast de hoje provoca a tese da memória fotográfica como argumento para inocentar o plágio. É um trecho do quarto capítulo de Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra.



Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O que é autoria acadêmica?

Henriette Browne, Uma menina escrevendo (ca. 1870)
O que é autoria? Antes de responder, já sabemos: esse é tema de intensos debates na comunidade acadêmica, talvez sem consenso entre os campos. Há desvios de autoria bastante conhecidos — autoria fantasma ou convidada são casos típicos de esquecimento ou acréscimo indevido de nomes assinando um artigo, mas o próprio plágio também fere essa categoria. Afinal, não é o plágio uma má-apropriação que viola o direito de atribuição de crédito do autor?

A pergunta “O que é um autor?” foi feita certa vez por Michel Foucault, que lhe respondeu em uma de suas conferências. Hoje, trazemos essa pergunta para nosso contexto de conversa: quem é o autor de uma peça acadêmica? Autor, em ciência, é mais do que quem escreve. É também quem delineia um projeto de pesquisa, formula hipóteses, vai a campo, analisa resultados, define argumentos, elabora tabelas ou quadros, e rascunha, revisa e aprova a publicação.

Mas por que autoria importa para nós? Porque ela expressa tanto o percurso de uma descoberta como a responsabilidade pelo que é dito como verdade científica — portanto passível de confirmação, refutação ou correção. É o autor quem responderá às perguntas feitas à sua pesquisa. E mais: num mercado em que a avaliação acadêmica é quantitativa, feita com base no número de publicações, a autoria vira moeda de troca.

No podcast de hoje, provocamos você com a pergunta “O que é um autor?” São trechos do terceiro capítulo de Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra.


Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Os gigantes e a imitação criativa

Isaac Newton certa vez eternizou a metáfora de que, para ver mais longe, é preciso subir nos ombros de gigantes. A frase era já antiga quando Newton a lembrou, dizem que veio do latim nanos gigantum humeris insidentes, e contemporaneamente inspirou o título de uma obra de Stephen Hawking. É desse jeitinho que se move a criação: nossas invenções são, antes, inspiração em algo de que nos apropriamos.
Órion cego procurando pelo raio de sol (Nicolas Poussin, 1658)
A arte talvez seja o campo mais fértil em exemplos de como se cruzam as rotas de inspiração dos autores. Telas, narrativas, esculturas, fotografias ou partituras dão boas-vindas a paródias, alusões, releituras, samples, intertextualidades — aquilo que Umberto Eco chamou de “piscadelas” ao leitor em Confissões de um jovem romancista.

No último post, dirigimos nossos holofotes para a desilusão que o plágio causa ao leitor. Hoje falamos de algo que é quase o oposto: o prazer de reconhecer, como leitores ou espectadores de outras formas artísticas, o sopro de uma voz anterior à obra que apreciamos. Nosso podcast fala de imitação criativa, esse diálogo entre artistas. É um trecho do segundo capítulo de Plágio: palavras escondidas, em que Debora Diniz e Ana Terra comentam estas três obras:
Majas em um balcão (Francisco Goya, c. 1810)
Perspectiva II: o balcão de Manet (René Magritte, 1950)
O balcão (Édouard Manet, 1868-1869)

Leia aqui a transcrição do áudio. E saiba mais sobre Plágio: palavras escondidas aqui.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O leitor enganado

Semana passada, trouxemos uma dica de leitura. Apresentamos Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra que inspirou a criação deste blog. A partir de hoje, convidamos você a nos acompanhar numa pequena jornada: percorreremos temas e trechos do livro, e assim arrumaremos ideias e conversas. Que tal?
Abrimos nosso papo nos colocando ao lado da leitora submissa, do pintor René Magritte. Mas não é bem como submissas que queremos nos posicionar diante dos autores que lemos, e sim como leitoras críticas — por vezes admiradas ou em devaneio, como a Moça com livro da tela abaixo, do brasileiro José Ferraz de Almeida Júnior (1859–1899), por vezes espantadas, como a leitora de Magritte.
“Nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça?”
Diferentes reações pode nos provocar o encontro com a literatura, e é desse papel de leitores que falamos hoje. A leitura será sempre nosso ponto de partida na vida acadêmica, não importa que posição ocupemos — estudantes, professoras, pesquisadores, editores ou revisores de periódico. Como leitores, somos personagens silenciosos, quase sempre solitários; porém, nosso espanto será coletivo se descobrirmos palavras escondidas naquilo que supomos ser escrita sincera.
O podcast de hoje são trechos do primeiro capítulo de Plágio: palavras escondidas. O tema é o engano do leitor de uma peça acadêmica diante do plágio. Ouça o podcast e junte-se a nós nessa jornada de leitura.

Leia aqui a transcrição do áudio. E saiba mais sobre Plágio: palavras escondidas aqui.
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