domingo, 12 de março de 2017

A arte de procrastinar

Há muita coisa escrita sobre esse tema. Blogs e sites de revistas de grande circulação adoram publicar vez ou outra um artigo com dicas sobre “como deixar de ser um procrastinador” ou “10 coisas que você deveria saber para deixar de procrastinar hoje”. Tenho muitas dúvidas se esse tipo de texto funciona ou se na verdade teriam um efeito oposto de angustiar ainda mais jovens pesquisadoras que estão com prazos apertados para a qualificação, escrita da dissertação ou monografia.
Há um livro muito bacana sobre esse tema que recomendo leitura chamado A arte da procrastinação: como realizar tarefas deixando-as para depois, de John Perry. O livro é exatamente sobre o que o título diz – ele discute como a procrastinação pode também ser encarada como uma característica não tão terrível assim. Na verdade, a maioria das pessoas procrastinadoras trabalham muito e fazem muitas coisas bacanas, mas apesar disso procrastinam.
Perry é um filósofo e professor na Universidade de Stanford, mas também se intitula como um procrastinador estruturado, ou seja, “uma pessoa que faz muito ao não fazer outras coisas” (:15). Isso significa, nas palavras de Perry, que procrastinadores não são pessoas detestáveis ou preguiçosas, mas podem ser considerados por muitos “seres humanos eficientes, respeitados e admirados por tudo que realizam e pelo bom uso que fazem do seu tempo” (:21). Parece paradoxal?  É aí que está a beleza do livro.
O aparente paradoxo do livro é justamente porque Perry defende que muitos procrastinadores são na verdade pessoas que trabalham muito, mas teriam muita dificuldade com prazos deixando sempre as tarefas mais importantes para depois. Isso não significa que procrastinadores deixem de honrar com seus compromissos – mas o prazo e o tempo se tornam quase sempre um problema, pois as tarefas importantes são deixadas de lado e trocadas por outras nem tão importantes assim, ou podem até ser importantes, mas certamente menos urgentes.
Assim, não acredite que procrastinar é sinônimo de preguiça, muitas vezes é apenas uma questão de dominar o uso do tempo e listar prioridades. Sabe aquela velha e boa técnica de escrever uma lista de tarefas em um pedaço de papel? Perry diz que esta é uma das melhores técnicas para apaziguar as almas dos procrastinadores de plantão, pois as tarefas terminadas terão sido riscadas e estarão no papel para olharmos e nos alegrarmos com a finalização dela. Ele aconselha fazer uma lista diária, mas sempre com tarefas miúdas. Se houver uma grande tarefa, uma saída seria dividi-la em pequenos atos para que seja possível cumpri-la em um dia. A ideia é fazer a lista no dia anterior – pois não corremos o risco de adiar a tarefa de fazer a lista de tarefas. Se você tem por exemplo uma meta de estudar um livro ou analisar várias entrevistas, pode ser interessante listar pequenas tarefas para alcançar esta meta, pois assim conseguirá ver o seu progresso diariamente e em poucos dias terá feito muito. E verá que aquela tarefa que parecia intimidadora não era impossível de ser concluída. Mesmo tendo procrastinado um pouco.

O livro é bem-humorado e pode ser lido em uma tarde. Você pode procrastinar lendo este livro. Verá que procrastinar não precisa ser encarado como um pecado mortal – mas é importante conhecer estratégias para o uso do tempo e avaliação de prioridades.

Perry, John (2012). A arte da procrastinação: como realizar tarefas deixando-as para depois.

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