O tema do post de hoje não existe. É um fantasma. Simples assim: autoplágio é uma contradição, um conceito paradoxal pela própria natureza do fenômeno que ele nomeia: se plagiar é apropriar-se indevidamente de palavras alheias, não faz muito sentido a ideia de plagiar a si mesmo. Claro que esse é um problema conceitual, mas, como todo fantasma, isso não quer dizer que o autoplágio não cause espanto — nesse caso, um espanto ético com a autorrepetição.
Por que o autoplágio ofende, se ele sequer existe? Por preocupações éticas: o desrespeito ao tempo de quem se vê lendo mais do mesmo enquanto poderia estar lidando com artigos originais ou dados novos; e, especialmente, o uso oportunista da repetição na corrida por métricas, num paradigma de avaliação quantitativa em que é mais beneficiado quem mais produz. A duplicação de si tem, nesse caso, motivações desleais e efeitos de engordamento despropositado da literatura — um argumento sustentado, aliás, por essa ferramenta ao justificar a necessidade de varreduras para detectar autoplágios.
Em certos cenários, porém, a autorrepetição é necessária e até desejada. São casos em que há um propósito argumentativo — novos contextos, mudanças no argumento ou aprimoramento de ideias de um autor requerem a retomada do já-dito em um outro texto. Ideias e palavras se repetem, mas não há clones despropositados de si. Nem sempre é fácil avaliar a fronteira entre repetição necessária ou conveniente; talvez isso deva ser observado caso a caso, como já apontaram editores de periódico preocupados com o limite entre semelhança e plágio.
Para finalizarmos, uma dica de ouro e um cuidado especial. A dica: na dúvida, sempre cite. A transparência é a melhor regra de sobrevivência na comunicação acadêmica. Se for preciso repetir-se, coloque uma nota de rodapé evidenciando sua reflexão anterior. E o cuidado: se aquilo que se pretende dizer novamente já foi publicado por um periódico, esse periódico detém os direitos autorais da publicação. O repeteco do artigo, mesmo que da mesma autoria, será limitado legalmente.
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| Espelho refletindo vaso (CGS, 2003) |
Muitas das ideias discutidas neste blog já foram propostas em linguagem de livro, em Plágio: palavras escondidas, mas pode confiar: este não é um autoplágio. E por falar em repetições aceitáveis, no podcast de hoje, discutimos dois casos em que a autorrepetição é bem-vinda na comunicação acadêmica. Ouça e compartilhe suas ideias conosco. Você pode nos escrever em palavrasescondidas@anis.org.br.
Leia aqui a transcrição do áudio.


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