domingo, 4 de dezembro de 2016

A única maneira certa

Howard Becker faz uma provocação muito interessante no terceiro capítulo de Truques daEscrita. Ele diz assim:


“Tenho muitos problemas com estudantes (não só com eles) quando leio seus artigos e sugiro alterações. Ficam calados, nervosos e encabulados quando digo que é um bom começo, que você só precisa fazer isso, aquilo e aquilo outro e vai ficar bom. Por que eles acham que há algo de errado em modificar o que eles escreveram? Por que são tão ariscos para reescrever?” (Becker, 2015, p. 71)

As perguntas de Becker tocam, em alguma medida, todas nós que nos arriscamos a escrever textos acadêmicos. Pois há uma crença muito comum de que existe uma Única Maneira Certa de fazer. E como isso repercute em nossa rotina de escrita? Becker nos ajuda a pensar e encontrar saídas:

1.     A hipótese de Becker é que muito de nossa relutância em refazer um texto vem de como fomos treinadas na vida escolar. A escola – e em alguma medida a graduação universitária – nos ensina que a escrita deve ser feita de uma única vez. E pior: que reescrever seria quase como trapacear. Assim, se imagina que uma boa escritora escreveria um texto de uma única vez, como se o texto tivesse que nascer pronto já na primeira versão, pois haveria “a maneira certa de fazer as coisas” e “gente inteligente” faz certo na primeira tentativa.  
2.     A crença na Única Maneira Certa é o que muitas vezes repercute na dificuldade de começarmos a escrever. A angústia do papel em branco se inicia, pois imaginamos que a primeira linha de um escrito já deveria ser a definitiva. Becker diria que grande parte das escritoras acabam iniciando seus textos com frases evasivas, que pouco dizem, pois esta seria estratégia para combater o receio de se comprometer com afirmações antes de se apresentar os dados. Para Becker haveria um “pudor científico em afirmar uma conclusão antes de apresentar todas as provas” (p. 81). No entanto, uma introdução que já apresente o percurso argumentativo pode ser revelar estratégia muito interessante para guiar as possíveis leitoras do texto.
3.     Mas iniciar com afirmações evasivas, que pouco dizem, mas preenchem linhas do papel em branco pode ser uma ótima maneira de começar. Principalmente se encararmos esse começo como um primeiro rascunho. Olhar nossos primeiros escritos como rascunhos pode ser uma grande estratégia para liberarmos os dedos no momento da escrita. Entender a primeira versão de um texto como rascunho nos dá margem de liberdade para escrevermos sem o compromisso, sem a fantasia da primeira escritura como a definitiva.  
4.     Se não há um Única Maneira Certa de fazer, qualquer frase de um texto em construção poderá ser modificada. Ou seja, qualquer trecho poderá mudar de lugar ou simplesmente ser retirado durante o processo de escrita. Para Becker, encarar a escrita como um processo nos permite escrever qualquer coisa, pois nada que escrevermos no nosso primeiro rascunho nos comprometerá, pois ainda haverão revisões e reescritas. Ou seja: escrever sobre nosso tema de estudo – sem censura – nos permite dar forma às nossas escolhas e pensamentos sobre o tema que nos acompanha ou sobre nossos achados de pesquisa.

Em resumo: para se livrar do mito da Única Maneira Certa de fazer, Becker sugere tentarmos escrever uma escrita caótica; pois em teoria antes de começarmos a escrever já estudamos muito sobre nosso tema e já pensamos sobre teoria, conceitos e argumentos. Por isso, os aspectos mais importantes virão nessa primeira escrita, mesmo que caótica. Mas lhe faltará organizar as categorias analíticas em linhas argumentativas.


Uma dica é usar papéis coloridos para organizar as primeiras ideias do rascunho já escrito. As pilhas de papéis coloridos poderão ser organizadas a partir das categorias e conceitos que apareceram na escrita caótica – cada pilha será uma unidade do argumento. Ao se distanciar do computador verá que há diferentes maneiras de organizar o seu texto. Algumas pilhas serão descartadas e outras poderão ser incluídas. Descartar e incluir papéis coloridos antes de voltar ao texto pode ser estratégia interessante para quem se apega ao texto (mesmo quando são rascunhos) e não consegue apagar parágrafos inteiros ou muda-los de lugar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Autoridade na escrita acadêmica

Na semana passada iniciamos a conversa sobre o livro Truquesda Escrita, de Howard Becker. Persona e autoridade é o segundo capítulo – nele Becker faz provocações sobre o estilo da escrita acadêmica em ciências humanas. Ele inicia o capítulo contando uma experiência ao revisar o capítulo da tese de uma estudante de pós-graduação e também amiga. Graças à proximidade, a estudante procurou Becker para falar de seu incômodo com a intrusão do amigo no texto: ele havia reescrito algumas partes, trocado muitas palavras, mas sem alterar nada do conteúdo e de suas ideias. A colega e aluna dizia que o texto estava certamente mais curto e mais claro, mas ainda assim estava incomodada, pois o texto havia perdido a classe.

Becker pediu então para que ela lhe explicasse o que queria dizer com classe em um texto acadêmico. A tentativa de definição resultou em uma carta entregue ao amigo e professor dois meses depois do pedido. Ela contou à Becker que a demora para entregar a carta com a definição do que seria um texto com “mais classe” foi um dos exercícios mais difíceis de sua vida, pois sabia que teria que falar sobre suas crenças. Alguns trechos estão no livro e valem a pena a leitura. Muito das confissões da estudante inquieta refletem facilmente as dúvidas e angústias de muitas de nós.

A jovem pesquisadora e aprendiz de escritora imaginava que para ser reconhecida no campo da intelectualidade deveria escrever de forma rebuscada – a escrita acadêmica tornava-se sinônimo de uma escrita barroca. Para Becker, acreditar na necessidade da retórica pomposa como voz de autoridade da vida intelectual não é um problema apenas da jovem escritora. Ao contrário, a crença na necessidade da prosa acadêmica estereotipada é hábito comum não somente entre os aprendizes, mas também entre aqueles que se acreditam iniciados. Para muitos seria o que distingue os leigos dos intelectuais profissionais. Nessa perspectiva, escrever com classe seria algo como “parecer inteligente, escrever para parecer e talvez até ser um determinado tipo de pessoa” (Becker, :57).

Ao levantar as provocações sobre estilos de escrita acadêmica Becker não está ignorando que existam jargões do campo, conceitos ou estilos de escrita que são influenciados por escolas teóricas. O que ele faz é refletir sobre se seria mesmo necessária uma retórica rebuscada para existir como escritoras no mundo acadêmico. Precisamos ser pouco compreendidas e apenas falar para os iniciados para nos tornarmos autoras fortes ou sermos reconhecidas no campo? A resposta e provocação de Becker é não. Pois a “autoridade não é intrínseca ao texto”. O que isso significa? Que os argumentos importam, que a força de sua pesquisa e o domínio da teoria podem ser escritos de maneira simples, direta e sem rodeios. E que mesmo assim poderá ser um grande texto.

Escolher o estilo de sua escritura também diz respeito sobre quem você quer ser na vida acadêmica, Becker diria que adotamos uma persona – que pode ser mais ou menos classuda – a depender de nossas escolhas de estilo de escrita. Para jovens estudantes há muitos regimes de avaliação, e talvez este fato possa parecer um empecilho para aquelas que dizem não saber como subverter a regra ou escrever em outras linguagens. Mas sempre é possível pensar em outros modos de escritura, mesmo numa tese ou dissertação. Negociar, por exemplo, com a orientadora quais personagens serão convidados para sua banca pode ser um bonito começo. 

domingo, 20 de novembro de 2016

Truques da escrita de Howard Becker

Truques da Escrita é um livro que deveria ser recomendado a todas as estudantes de pós-graduação e de fim de graduação que estão começando a se aventurar a escrever textos para publicação. Sua leitura é leve e bem-humorada, mas ainda assim podemos considerá-lo um manual de escrita acadêmica. A leitura do livro nos provoca a refletir sobre nossos hábitos de escrita e o mais interessante: percebemos que não estamos sozinhas nas manias, angústias ou rituais que criamos e que em muitos momentos tornam-se desculpas para adiar o começo da escrita. Durante as próximas semanas compartilharemos algumas das reflexões apontadas por Howard S. Becker ao longo dos capítulos.

O primeiro capítulo, “introdução à redação para estudantes de pós-graduação” é um relato bem-humorado sobre um experimento de Howard Becker – ele ofereceu por anos um curso sobre escrita acadêmica após ouvir de estudantes e colegas os “problemas crônicos” relacionados à escrita. No capítulo, Becker fala sobre o ouvido e vivido durante sua experiência no curso. O mais interessante é que a experiência contada por Becker não está muito distante do que também vivemos por aqui. Se a loucura pode ser compartilhada, apresento abaixo alguns pontos que podem ser de interesse geral:

1.     No primeiro dia do curso Becker perguntava às estudantes: como você escreve?
Essa pergunta pode ser muito interessante para refletirmos sobre quais rituais mágicos utilizamos como rotina que antecede a escrita e acaba nos afastando de nosso principal objetivo – que é começar a escrever. As estudantes descreviam que antes da escrita arrumavam a casa, deviam colocar a escrivaninha em ordem, anotavam tudo que liam em blocos amarelos, acendiam incensos, entre outros inúmeros hábitos utilizados como tentativa de se afastar da angústia que antecede a escrita.  Becker relata que havia dois principais medos entre os estudantes: o de não conseguir organizar seus pensamentos para a escrita e o de que fossem ridicularizados pelo o que escrevessem, pois poderiam escrever algo “errado”.
Em alguma medida a maioria de nós fazemos espécies de rituais como preparação da escrita – o risco é não começarmos nunca. E nos tornarmos mudas.

2.     Para Becker somos treinadas durante toda a graduação a escrever uma única versão de um texto para entregar em trabalhos finais de disciplina. Escrevemos em cima da hora e entregamos o texto sem qualquer revisão, pois sabemos que somente seremos lidas por nossas professoras. No entanto, quando as estudantes entram na pós-graduação continuam acreditando que os textos deveriam ser bons logo na primeira tentativa. Reescrever – e muito, faz parte da rotina de boas escritoras. Nenhum texto nasce pronto na primeira versão.

3.     Becker ainda alerta: na verdade a primeira versão de um texto de 10 páginas pode, na maioria das vezes, ser reduzido à metade sem qualquer prejuízo de sua compreensão. Isso se dá pois somos treinadas nas ciências sociais e não fazer afirmações diretas, damos voltas e fazemos muitas retóricas vazias de significado. Um dos exercícios de Becker em classe era pegar um texto de poucas páginas e reduzi-lo a poucos parágrafos apenas revisando e retirando os rodeios e redundâncias. Já experimentou finalizar um texto, deixa-lo descansar por uns dois ou três dias e após esse período revisá-lo linha a linha?

4.     Há para Becker uma falsa ideia entre as estudantes que se traduz na frase “se você pensa com clareza escreverá com clareza”. Essa frase transmite uma falsa ideia de que tudo deve estar elaborado na nossa cabeça antes de começarmos a escrever a primeira palavra. Qual o risco disso? Nunca começar a escrever. A teoria de Becker segue na direção oposta. Para ele, você só se dará conta de suas escolhas, perspectivas teóricas e reflexões quando começar a escrever. A primeira escritura sempre será um rascunho, mas será fundamental para dar segurança aos dedos no momento da escrita.



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