domingo, 20 de novembro de 2016

Truques da escrita de Howard Becker

Truques da Escrita é um livro que deveria ser recomendado a todas as estudantes de pós-graduação e de fim de graduação que estão começando a se aventurar a escrever textos para publicação. Sua leitura é leve e bem-humorada, mas ainda assim podemos considerá-lo um manual de escrita acadêmica. A leitura do livro nos provoca a refletir sobre nossos hábitos de escrita e o mais interessante: percebemos que não estamos sozinhas nas manias, angústias ou rituais que criamos e que em muitos momentos tornam-se desculpas para adiar o começo da escrita. Durante as próximas semanas compartilharemos algumas das reflexões apontadas por Howard S. Becker ao longo dos capítulos.

O primeiro capítulo, “introdução à redação para estudantes de pós-graduação” é um relato bem-humorado sobre um experimento de Howard Becker – ele ofereceu por anos um curso sobre escrita acadêmica após ouvir de estudantes e colegas os “problemas crônicos” relacionados à escrita. No capítulo, Becker fala sobre o ouvido e vivido durante sua experiência no curso. O mais interessante é que a experiência contada por Becker não está muito distante do que também vivemos por aqui. Se a loucura pode ser compartilhada, apresento abaixo alguns pontos que podem ser de interesse geral:

1.     No primeiro dia do curso Becker perguntava às estudantes: como você escreve?
Essa pergunta pode ser muito interessante para refletirmos sobre quais rituais mágicos utilizamos como rotina que antecede a escrita e acaba nos afastando de nosso principal objetivo – que é começar a escrever. As estudantes descreviam que antes da escrita arrumavam a casa, deviam colocar a escrivaninha em ordem, anotavam tudo que liam em blocos amarelos, acendiam incensos, entre outros inúmeros hábitos utilizados como tentativa de se afastar da angústia que antecede a escrita.  Becker relata que havia dois principais medos entre os estudantes: o de não conseguir organizar seus pensamentos para a escrita e o de que fossem ridicularizados pelo o que escrevessem, pois poderiam escrever algo “errado”.
Em alguma medida a maioria de nós fazemos espécies de rituais como preparação da escrita – o risco é não começarmos nunca. E nos tornarmos mudas.

2.     Para Becker somos treinadas durante toda a graduação a escrever uma única versão de um texto para entregar em trabalhos finais de disciplina. Escrevemos em cima da hora e entregamos o texto sem qualquer revisão, pois sabemos que somente seremos lidas por nossas professoras. No entanto, quando as estudantes entram na pós-graduação continuam acreditando que os textos deveriam ser bons logo na primeira tentativa. Reescrever – e muito, faz parte da rotina de boas escritoras. Nenhum texto nasce pronto na primeira versão.

3.     Becker ainda alerta: na verdade a primeira versão de um texto de 10 páginas pode, na maioria das vezes, ser reduzido à metade sem qualquer prejuízo de sua compreensão. Isso se dá pois somos treinadas nas ciências sociais e não fazer afirmações diretas, damos voltas e fazemos muitas retóricas vazias de significado. Um dos exercícios de Becker em classe era pegar um texto de poucas páginas e reduzi-lo a poucos parágrafos apenas revisando e retirando os rodeios e redundâncias. Já experimentou finalizar um texto, deixa-lo descansar por uns dois ou três dias e após esse período revisá-lo linha a linha?

4.     Há para Becker uma falsa ideia entre as estudantes que se traduz na frase “se você pensa com clareza escreverá com clareza”. Essa frase transmite uma falsa ideia de que tudo deve estar elaborado na nossa cabeça antes de começarmos a escrever a primeira palavra. Qual o risco disso? Nunca começar a escrever. A teoria de Becker segue na direção oposta. Para ele, você só se dará conta de suas escolhas, perspectivas teóricas e reflexões quando começar a escrever. A primeira escritura sempre será um rascunho, mas será fundamental para dar segurança aos dedos no momento da escrita.



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