Truques da Escrita é um livro que deveria
ser recomendado a todas as estudantes de pós-graduação e de fim de graduação
que estão começando a se aventurar a escrever textos para publicação. Sua
leitura é leve e bem-humorada, mas ainda assim podemos considerá-lo um manual de
escrita acadêmica. A leitura do livro nos provoca a refletir sobre nossos
hábitos de escrita e o mais interessante: percebemos que não estamos sozinhas
nas manias, angústias ou rituais que criamos e que em muitos momentos tornam-se
desculpas para adiar o começo da escrita. Durante as próximas semanas
compartilharemos algumas das reflexões apontadas por Howard S. Becker ao longo dos
capítulos.
O primeiro
capítulo, “introdução à redação para estudantes de pós-graduação” é um relato
bem-humorado sobre um experimento de Howard Becker – ele ofereceu por anos um
curso sobre escrita acadêmica após ouvir de estudantes e colegas os “problemas
crônicos” relacionados à escrita. No capítulo, Becker fala sobre o ouvido e
vivido durante sua experiência no curso. O mais interessante é que a
experiência contada por Becker não está muito distante do que também vivemos
por aqui. Se a loucura pode ser compartilhada, apresento abaixo alguns pontos
que podem ser de interesse geral:
1.
No primeiro dia do curso Becker perguntava às
estudantes: como você escreve?
Essa pergunta
pode ser muito interessante para refletirmos sobre quais rituais mágicos utilizamos como rotina que antecede a escrita e
acaba nos afastando de nosso principal objetivo – que é começar a escrever. As
estudantes descreviam que antes da escrita arrumavam a casa, deviam colocar a
escrivaninha em ordem, anotavam tudo que liam em blocos amarelos, acendiam incensos,
entre outros inúmeros hábitos utilizados como tentativa de se afastar da
angústia que antecede a escrita. Becker
relata que havia dois principais medos entre os estudantes: o de não conseguir
organizar seus pensamentos para a escrita e o de que fossem ridicularizados
pelo o que escrevessem, pois poderiam escrever algo “errado”.
Em alguma
medida a maioria de nós fazemos espécies de rituais como preparação da escrita –
o risco é não começarmos nunca. E nos tornarmos mudas.
2.
Para Becker somos treinadas durante toda a graduação a
escrever uma única versão de um texto para entregar em trabalhos finais de
disciplina. Escrevemos em cima da hora e entregamos o texto sem qualquer revisão,
pois sabemos que somente seremos lidas por nossas professoras. No entanto,
quando as estudantes entram na pós-graduação continuam acreditando que os
textos deveriam ser bons logo na primeira tentativa. Reescrever – e muito, faz
parte da rotina de boas escritoras. Nenhum texto nasce pronto na primeira
versão.
3.
Becker ainda alerta: na verdade a primeira versão de um
texto de 10 páginas pode, na maioria das vezes, ser reduzido à metade sem
qualquer prejuízo de sua compreensão. Isso se dá pois somos treinadas nas
ciências sociais e não fazer afirmações diretas, damos voltas e fazemos muitas
retóricas vazias de significado. Um dos exercícios de Becker em classe era
pegar um texto de poucas páginas e reduzi-lo a poucos parágrafos apenas
revisando e retirando os rodeios e redundâncias. Já experimentou finalizar um
texto, deixa-lo descansar por uns dois ou três dias e após esse período revisá-lo
linha a linha?
4.
Há para Becker uma falsa ideia entre as estudantes que
se traduz na frase “se você pensa com clareza escreverá com clareza”. Essa
frase transmite uma falsa ideia de que tudo deve estar elaborado na nossa
cabeça antes de começarmos a escrever a primeira palavra. Qual o risco disso?
Nunca começar a escrever. A teoria de Becker segue na direção oposta. Para ele,
você só se dará conta de suas escolhas, perspectivas teóricas e reflexões
quando começar a escrever. A primeira escritura sempre será um rascunho, mas
será fundamental para dar segurança aos dedos no momento da escrita.
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