domingo, 27 de novembro de 2016

Autoridade na escrita acadêmica

Na semana passada iniciamos a conversa sobre o livro Truquesda Escrita, de Howard Becker. Persona e autoridade é o segundo capítulo – nele Becker faz provocações sobre o estilo da escrita acadêmica em ciências humanas. Ele inicia o capítulo contando uma experiência ao revisar o capítulo da tese de uma estudante de pós-graduação e também amiga. Graças à proximidade, a estudante procurou Becker para falar de seu incômodo com a intrusão do amigo no texto: ele havia reescrito algumas partes, trocado muitas palavras, mas sem alterar nada do conteúdo e de suas ideias. A colega e aluna dizia que o texto estava certamente mais curto e mais claro, mas ainda assim estava incomodada, pois o texto havia perdido a classe.

Becker pediu então para que ela lhe explicasse o que queria dizer com classe em um texto acadêmico. A tentativa de definição resultou em uma carta entregue ao amigo e professor dois meses depois do pedido. Ela contou à Becker que a demora para entregar a carta com a definição do que seria um texto com “mais classe” foi um dos exercícios mais difíceis de sua vida, pois sabia que teria que falar sobre suas crenças. Alguns trechos estão no livro e valem a pena a leitura. Muito das confissões da estudante inquieta refletem facilmente as dúvidas e angústias de muitas de nós.

A jovem pesquisadora e aprendiz de escritora imaginava que para ser reconhecida no campo da intelectualidade deveria escrever de forma rebuscada – a escrita acadêmica tornava-se sinônimo de uma escrita barroca. Para Becker, acreditar na necessidade da retórica pomposa como voz de autoridade da vida intelectual não é um problema apenas da jovem escritora. Ao contrário, a crença na necessidade da prosa acadêmica estereotipada é hábito comum não somente entre os aprendizes, mas também entre aqueles que se acreditam iniciados. Para muitos seria o que distingue os leigos dos intelectuais profissionais. Nessa perspectiva, escrever com classe seria algo como “parecer inteligente, escrever para parecer e talvez até ser um determinado tipo de pessoa” (Becker, :57).

Ao levantar as provocações sobre estilos de escrita acadêmica Becker não está ignorando que existam jargões do campo, conceitos ou estilos de escrita que são influenciados por escolas teóricas. O que ele faz é refletir sobre se seria mesmo necessária uma retórica rebuscada para existir como escritoras no mundo acadêmico. Precisamos ser pouco compreendidas e apenas falar para os iniciados para nos tornarmos autoras fortes ou sermos reconhecidas no campo? A resposta e provocação de Becker é não. Pois a “autoridade não é intrínseca ao texto”. O que isso significa? Que os argumentos importam, que a força de sua pesquisa e o domínio da teoria podem ser escritos de maneira simples, direta e sem rodeios. E que mesmo assim poderá ser um grande texto.

Escolher o estilo de sua escritura também diz respeito sobre quem você quer ser na vida acadêmica, Becker diria que adotamos uma persona – que pode ser mais ou menos classuda – a depender de nossas escolhas de estilo de escrita. Para jovens estudantes há muitos regimes de avaliação, e talvez este fato possa parecer um empecilho para aquelas que dizem não saber como subverter a regra ou escrever em outras linguagens. Mas sempre é possível pensar em outros modos de escritura, mesmo numa tese ou dissertação. Negociar, por exemplo, com a orientadora quais personagens serão convidados para sua banca pode ser um bonito começo. 

0 comments:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.

Envie-nos sua dúvida ou história de plágio

Nome

E-mail *

Mensagem *