Na semana passada iniciamos a conversa sobre o livro Truquesda Escrita, de Howard Becker. Persona e autoridade é o segundo capítulo –
nele Becker faz provocações sobre o estilo da escrita acadêmica em ciências
humanas. Ele inicia o capítulo contando uma experiência ao revisar o capítulo
da tese de uma estudante de pós-graduação e também amiga. Graças à proximidade,
a estudante procurou Becker para falar de seu incômodo com a intrusão do amigo
no texto: ele havia reescrito algumas partes, trocado muitas palavras, mas sem
alterar nada do conteúdo e de suas ideias. A colega e aluna dizia que o texto
estava certamente mais curto e mais claro, mas ainda assim estava incomodada,
pois o texto havia perdido a classe.
Becker pediu
então para que ela lhe explicasse o que queria dizer com classe em um texto
acadêmico. A tentativa de definição resultou em uma carta entregue ao amigo e
professor dois meses depois do pedido. Ela contou à Becker que a demora para
entregar a carta com a definição do que seria um texto com “mais classe” foi um
dos exercícios mais difíceis de sua vida, pois sabia que teria que falar sobre
suas crenças. Alguns trechos estão no livro e valem a pena a leitura. Muito das
confissões da estudante inquieta refletem facilmente as dúvidas e angústias de
muitas de nós.
A jovem
pesquisadora e aprendiz de escritora imaginava que para ser reconhecida no
campo da intelectualidade deveria escrever de forma rebuscada – a escrita
acadêmica tornava-se sinônimo de uma escrita barroca. Para Becker, acreditar na
necessidade da retórica pomposa como voz de autoridade da vida intelectual não
é um problema apenas da jovem escritora. Ao contrário, a crença na necessidade
da prosa acadêmica estereotipada é hábito comum não somente entre os
aprendizes, mas também entre aqueles que se acreditam iniciados. Para muitos
seria o que distingue os leigos dos intelectuais profissionais. Nessa
perspectiva, escrever com classe seria algo como “parecer inteligente, escrever
para parecer e talvez até ser um determinado tipo de pessoa” (Becker, :57).
Ao levantar
as provocações sobre estilos de escrita acadêmica Becker não está ignorando que
existam jargões do campo, conceitos ou estilos de escrita que são influenciados
por escolas teóricas. O que ele faz é refletir sobre se seria mesmo necessária
uma retórica rebuscada para existir como escritoras no mundo acadêmico. Precisamos
ser pouco compreendidas e apenas falar para os iniciados para nos tornarmos
autoras fortes ou sermos reconhecidas no campo? A resposta e provocação de
Becker é não. Pois a “autoridade não é intrínseca ao texto”. O que isso
significa? Que os argumentos importam, que a força de sua pesquisa e o domínio
da teoria podem ser escritos de maneira simples, direta e sem rodeios. E que
mesmo assim poderá ser um grande texto.
Escolher o estilo de sua escritura também diz
respeito sobre quem você quer ser na vida acadêmica, Becker diria que adotamos uma
persona – que pode ser mais ou menos classuda – a depender de nossas escolhas de estilo de escrita. Para jovens estudantes há muitos regimes de
avaliação, e talvez este fato possa parecer um empecilho para aquelas que dizem
não saber como subverter a regra ou escrever em outras linguagens. Mas sempre é
possível pensar em outros modos de escritura, mesmo numa tese ou dissertação.
Negociar, por exemplo, com a orientadora quais personagens serão convidados para sua banca pode
ser um bonito começo.
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