Howard
Becker faz uma provocação muito interessante no terceiro capítulo de Truques daEscrita. Ele diz assim:
“Tenho muitos problemas com estudantes (não
só com eles) quando leio seus artigos e sugiro alterações. Ficam calados,
nervosos e encabulados quando digo que é um bom começo, que você só precisa
fazer isso, aquilo e aquilo outro e vai ficar bom. Por que eles acham que há
algo de errado em modificar o que eles escreveram? Por que são tão ariscos para
reescrever?” (Becker, 2015, p. 71)
As perguntas
de Becker tocam, em alguma medida, todas nós que nos arriscamos a escrever
textos acadêmicos. Pois há uma crença muito comum de que existe uma Única Maneira
Certa de fazer. E como isso repercute em nossa rotina de escrita? Becker nos
ajuda a pensar e encontrar saídas:
1.
A hipótese de Becker é que muito de nossa relutância
em refazer um texto vem de como fomos treinadas na vida escolar. A escola – e em
alguma medida a graduação universitária – nos ensina que a escrita deve ser
feita de uma única vez. E pior: que reescrever seria quase como trapacear.
Assim, se imagina que uma boa escritora escreveria um texto de uma única vez,
como se o texto tivesse que nascer pronto já na primeira versão, pois haveria “a
maneira certa de fazer as coisas” e “gente inteligente” faz certo na primeira
tentativa.
2.
A crença na Única Maneira Certa é o que muitas vezes
repercute na dificuldade de começarmos a escrever. A angústia do papel em
branco se inicia, pois imaginamos que a primeira linha de um escrito já deveria
ser a definitiva. Becker diria que grande parte das escritoras acabam iniciando
seus textos com frases evasivas, que pouco dizem, pois esta seria estratégia
para combater o receio de se comprometer com afirmações antes de se apresentar
os dados. Para Becker haveria um “pudor científico em afirmar uma conclusão
antes de apresentar todas as provas” (p. 81). No entanto, uma introdução que já
apresente o percurso argumentativo pode ser revelar estratégia muito
interessante para guiar as possíveis leitoras do texto.
3.
Mas iniciar com afirmações evasivas, que pouco dizem,
mas preenchem linhas do papel em branco pode ser uma ótima maneira de começar.
Principalmente se encararmos esse começo como um primeiro rascunho. Olhar
nossos primeiros escritos como rascunhos pode ser uma grande estratégia para
liberarmos os dedos no momento da escrita. Entender a primeira versão de um
texto como rascunho nos dá margem de liberdade para escrevermos sem o
compromisso, sem a fantasia da primeira escritura como a definitiva.
4.
Se não há um Única Maneira Certa de fazer, qualquer
frase de um texto em construção poderá ser modificada. Ou seja, qualquer trecho
poderá mudar de lugar ou simplesmente ser retirado durante o processo de
escrita. Para Becker, encarar a escrita como um processo nos permite escrever
qualquer coisa, pois nada que escrevermos no nosso primeiro rascunho nos
comprometerá, pois ainda haverão revisões e reescritas. Ou seja: escrever sobre
nosso tema de estudo – sem censura – nos permite dar forma às nossas escolhas e
pensamentos sobre o tema que nos acompanha ou sobre nossos achados de pesquisa.
Em
resumo: para se livrar do mito da Única Maneira Certa de fazer, Becker sugere
tentarmos escrever uma escrita caótica; pois em teoria antes de começarmos a
escrever já estudamos muito sobre nosso tema e já pensamos sobre teoria, conceitos
e argumentos. Por isso, os aspectos mais importantes virão nessa primeira escrita,
mesmo que caótica. Mas lhe faltará organizar as categorias analíticas em linhas
argumentativas.
Uma
dica é usar papéis coloridos para organizar as primeiras ideias do rascunho já
escrito. As pilhas de papéis coloridos poderão ser organizadas a partir das
categorias e conceitos que apareceram na escrita caótica – cada pilha será uma
unidade do argumento. Ao se distanciar do computador verá que há diferentes
maneiras de organizar o seu texto. Algumas pilhas serão descartadas e outras poderão
ser incluídas. Descartar e incluir papéis coloridos antes de voltar ao texto
pode ser estratégia interessante para quem se apega ao texto (mesmo quando são rascunhos) e não consegue
apagar parágrafos inteiros ou muda-los de lugar.

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