domingo, 6 de novembro de 2016

Integridade acadêmica



O tema da integridade acadêmica sempre passeia por aqui. Há inúmeros documentos de universidades ao redor do mundo e organizações internacionais que incluem normas e princípios éticos a serem compartilhados na comunidade científica – desde as primeiras etapas de uma pesquisa ao escritos de seus resultados.
O texto científico, se comparado à literatura, é de estilo prosaico. As leitoras de peças acadêmicas esperam que os textos lidos comuniquem sobre seus achados de pesquisa com honestidade e clareza. Quando buscamos em textos acadêmicos respostas para algumas de nossas inquietações, é porque confiamos na ciência. Há sempre exceções, claro; mas não há expectativa de que um texto científico seja brilhante pelo estilo estético ou literário – na verdade os escritos científicos são basicamente feitos de textos ordinários.
Assim, os textos podem ser simples, diretos, sem rodeios ou poesia. Mas há características que devem ser seguidas durante o percurso acadêmico. Dever é verbo forte, mas reflete o caráter normativo da criação intelectual no campo da ciência. E é aí que entra o tema da integridade acadêmica. Nesse sentido, a leitora de um artigo, tese ou monografia espera que o texto seja mesmo da autora que assina, confia que os dados apresentados foram um dia coletados e que foram tratados com rigor metodológico. Mas nem sempre isso acontece, seja por desespero com prazos apertados, metas para publicação, ingenuidade ou desconhecimento das regras.
Diferentes órgãos e Universidades brasileiras já lançaram orientações e diretrizes sobre plágio e integridade na pesquisa – como por exemplo a UFRJ, UFSCar e Fapesp. A integridade está ancorada no campo da ética, e na comunidade científica relaciona-se, por exemplo, ao rigor metodológico, transparência, responsabilidade da pesquisadora e honestidade intelectual durante a pesquisa e publicação dos resultados.
Infrações à integridade científica são cada vez mais discutidas dentro do contexto acadêmico – mas não há consenso sobre as medidas cabíveis quando um estudante ou pesquisador são descobertos. Um ato considerado intencional provavelmente será considerado mais gravoso que um ato não intencional. Assim como um estudante de graduação possivelmente terá sanções menos impactantes em sua carreira profissional que um professor universitário. As sanções podem ser desde tirar zero em uma prova, passando por reprovação em disciplina até demissão de uma Universidade Pública. Más condutas científicas devem ser combatidas, mas acreditamos pouco na punição como recurso de mudança. As saídas pedagógicas nos parecem mais interessantes e podem estimular o debate acadêmico sobre integridade na pesquisa e escrita.

Para quem quiser se aprofundar no tema, algumas leituras podem ser interessantes:

Diniz, Debora e Terra, Ana. Plagio: palavras escondidas. O livro pode ser encontrado aqui.
Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos da Unesco. Aqui.
Declaração sobre Integridade Científica. Produzida pela Universidade de Barcelona. Aqui.

Você também poderá conferir aqui o podcast: 

domingo, 23 de outubro de 2016

Faça backup

Um dia desses vi um cartaz na Universidade que dizia mais ou menos assim:

“Meu notebook foi levado do laboratório XX. Pago o dobro do valor de mercado. Minha tese está nele”

Senti profunda compaixão pela aluna que certamente estava desesperada imaginando como seria remota a recuperação seus escritos. Provavelmente alguém já conheceu uma alma aflita que perdeu um capítulo inteiro da monografia ou dissertação porque o computador pifou, acabou a luz sem salvar, ou um vírus maligno corrompeu o documento. Nem todas temos o azar de ver nosso computador ser roubado no momento de escrita da tese ou trabalho final; mas computador pifado, vírus ou arquivo corrompido são acontecimentos que fatalmente podem ocorrer durante nossa jornada acadêmica.
O que fazer para evitar transtornos maiores quando estamos em rotina intensa de escritura? A resposta parece simples: Faça backup. Mas não vale mandar e-mails diários para si mesma e acreditar que esteja fazendo o melhor backup da sua vida. No post de hoje darei duas dicas nada complicadas que podem facilitar a sua rotina e deixar suas preocupações ocuparem outros espaços.

Dica 1: Tenha um HD externo. Mas não se esqueça de fazer backups periódicos de todos os arquivos armazenados no seu computador pessoal. Uma estratégia interessante é a de fazer backups semanais, e sempre datados. Nunca apague do HD seu backup anterior, apenas quando o HD estiver completamente cheio. Quando isso acontecer vá descartando os backups mais antigos. Essa estratégia pode ser muito útil para contornar, por exemplo, situações em que apagamos sem querer algum arquivo importante e nos damos conta dias ou semanas depois. Mas não se esqueça de deixar o seu HD de Backup em um lugar seguro. Se levar na mochila o HD junto com o seu computador, ou utilizá-lo como se fosse um pendrive a proposta passa a ter pouco sentido.

Dica 2: Aposte na nuvem. Atualmente há várias alternativas gratuitas de armazenamento remoto. Há muitas vantagens, acreditem. Enumero três delas: a primeira é o recurso de atualização automática dos arquivos, uma segunda é o acesso aos documentos em diferentes computadores. A terceira vantagem está na possibilidade de compartilhamento de arquivos em grupos – em algumas opções, como por exemplo, GoogleDrive e OneDrive podemos editar arquivos em grupo e em tempo real, fazer comentários e criar pastas de compartilhamento com diferentes níveis de acesso. Quase todas plataformas de armazenamento remoto possuem versões gratuitas, mas há variações de funcionalidades e espaços disponíveis para armazenamento.

Abaixo listo os links de algumas plataformas para armazenamento remoto. Sugiro darem uma olhada e compararem cada um deles:

Google Drive (15 GB gratuito): https://www.google.com/drive/
One Drive (5 a  10 GB gratuito): https://onedrive.live.com/about/pt-BR/
Dropbox (2 a 16 GB gratuito): https://www.dropbox.com/pt_BR/
Box (10 GB gratuito): https://www.box.com/

Jumpshare (2 a 18 GB gratuito): https://jumpshare.com/

Você também pode ouvir o podcast aqui: https://soundcloud.com/palavrasescondidas/faca-backup 

domingo, 16 de outubro de 2016

Cuidado com as aspas

O tema de hoje é inspirado em uma inquietação que recebemos de uma jovem pesquisadora, mas certamente ela não está sozinha. Após escrever um projeto para seleção de mestrado, se deparou com o seguinte dilema:

 Percebi que algumas citações indiretas do projeto deveriam ser citações diretas, pois há trechos com as mesmas palavras usadas pelo autor citado. Isso pode me desclassificar?

No limite, a desclassificação da candidata na seleção seria possível, pois ainda com a inclusão do autor/ano o esquecimento das aspas poderia lhe render uma acusação de plágio, mesmo que não-intencional. Nesse sentido, a distração da escritora ou o desconhecimento das regras de comunicação científica não poderão ser desculpas para justificar o mal-uso das normas de pontuação na escritura acadêmica.

Por que um simples esquecimento das aspas poderia gerar medida tão drástica? Uma das respostas possíveis está localizada na diferença entre citação direta e paráfrase.
Já falamos por aqui e aqui das citações e seus diferentes usos na escritura acadêmica. A paráfrase é um texto secundário, nesse sentido, há autoria sobre o texto lido. Se as aspas estão ausentes no texto, uma leitora esperaria que o trecho lido não se trata de uma simples cópia do original, mas uma releitura com expectativa de autoria. No entanto, quando citamos uma fonte para informar nossas rotas literárias, algum modo, o texto terá semelhanças à fonte original. Isso significa que numa paráfrase damos as rotas das autoras que seguimos para construção das afirmações, mas a responsabilidade sobre o dito não será da autora original. Uma leitora atenta poderá perseguir nossa rota de autoras e colocar em xeque as afirmações parafraseadas, caso ultrapassem os limites do que poderia ser compreendido como uma interpretação razoável do lido. Por isso, a citação das autoras lidas deve ser regra básica para o exercício da integridade acadêmica.

Diferente da paráfrase, em que há expectativa de autoria, a citação literal é cópia do lido. E por isso as aspas são tão fundamentais – elas podem ser compreendidas como um sinal de alerta às leitoras. Em A Arte da Pontuação, Noah Lukeman (2005) descreve as aspas como "o sinal mais visível" (:119): seriam as trombetas do texto. Elas abrem e fecham o trecho forasteiro, ou seja, avisam a leitora o começo e o fim das palavras ditas por outras autoras diferentes de nós. Por ser a cópia de um trecho lido devem trazer autoria, ano e número da página.

Se na citação direta devemos indicar a página do texto copiado, na paráfrase não esperamos encontrar a indicação da página lida. Pois para elaborar uma paráfrase lemos muito mais que escrevemos: uma obra, um capítulo ou ao menos uma dezena de páginas foram lidas e estudadas para a escrita do trecho parafraseado. A paráfrase, portanto, é um dos principais espaços para o ensaio da escrita autoral. Por isso, não se descuide das aspas – se elas não estão no texto há uma expectativa de que aquele trecho deveria ser seu.

Você também poderá conferir o podcast aqui:


Lukeman, Noah. A Arte da Pontuação. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 
Tecnologia do Blogger.

Envie-nos sua dúvida ou história de plágio

Nome

E-mail *

Mensagem *