domingo, 19 de março de 2017

Chegou o momento de escrever a monografia?

A maioria dos cursos de graduação em ciências humanas e sociais tem como exigência a defesa de uma monografia para conclusão do curso. Apesar das estudantes saberem que a escrita da monografia será uma das condições para o recebimento do diploma, a existência deste fato é deixada do lado e, na maioria das vezes, só reaparece um semestre antes do prazo da entrega do texto. Com o prazo apertado, as estudantes ficarão ansiosas e correrão contra o tempo para decidir sobre o que irão escrever, e muitas ainda terão que ir em busca de um orientador ou orientadora.
É nesse sentido que acredito que um dos maiores desafios enfrentados por estudantes de graduação está localizado antes mesmo da escrita: na delimitação do tema e definição do problema de pesquisa. Quando chega a hora de planejar a monografia muitas estudantes se perguntam: mas como vou definir meu referencial teórico? Como ter ideias para o meu problema de pesquisa? Como saber quais textos ler? Ou simplesmente se perguntam: Por onde começar? Saibam que há saídas para essas e outras dúvidas tão comuns e que afligem tantas jovens estudantes. Nas próximas semanas tentarei responder estas e outras perguntas.

Mas, além das dúvidas e angústias, há outro detalhe que provoca arrepios em algumas estudantes quando pensam que terão que enfrentar a escrita da monografia. Diferente das estudantes que desejam seguir carreira acadêmica com planos para cursar mestrado ou doutorado, as estudantes que querem receber o diploma para iniciar a vida profissional em outros espaços podem ficar desestimuladas, pois em alguns momentos acabam encarando a monografia como uma perda de tempo. Talvez um dos motivos para tal desânimo venha de uma compreensão equivocada sobre a monografia estar descolada daquilo que entendem como a prática profissional.
É verdade que a escrita da monografia se diferencia da escrita de um parecer ou qualquer documento assinado por um profissional no exercício de sua profissão. A monografia deverá se enquadrar em determinadas regras da escritura acadêmica: problema, métodos e referencial teórico compõem algumas das exigências de avaliação de um texto acadêmico. Mas isso não significa a impossibilidade de descobertas e aproximação com o tema de seu interesse.

A monografia poderá ser o único texto acadêmico de sua vida – por isso, meu conselho é tentar fazer desta experiência um momento leve e rodeado de descobertas. Mas como fazer isso? Escreva sobre aquilo que tem curiosidade, um tema que em alguma medida lhe mobilize. Em outras palavras, escreva sobre algo que importa para você. Mesmo que a vida depois do diploma lhe desvie para outros caminhos use este momento para escrever sobre um interesse ou desejo. Pense em temas que lhe despertam curiosidade, seja por razões políticas ou pessoais. Verá que exercer a escrita sobre algo que gosta terá um efeito diferente e poderá até transformar este momento da escrita da monografia em beleza e descoberta. A experiência, quem sabe, deixará de ser mera obrigação.

domingo, 12 de março de 2017

A arte de procrastinar

Há muita coisa escrita sobre esse tema. Blogs e sites de revistas de grande circulação adoram publicar vez ou outra um artigo com dicas sobre “como deixar de ser um procrastinador” ou “10 coisas que você deveria saber para deixar de procrastinar hoje”. Tenho muitas dúvidas se esse tipo de texto funciona ou se na verdade teriam um efeito oposto de angustiar ainda mais jovens pesquisadoras que estão com prazos apertados para a qualificação, escrita da dissertação ou monografia.
Há um livro muito bacana sobre esse tema que recomendo leitura chamado A arte da procrastinação: como realizar tarefas deixando-as para depois, de John Perry. O livro é exatamente sobre o que o título diz – ele discute como a procrastinação pode também ser encarada como uma característica não tão terrível assim. Na verdade, a maioria das pessoas procrastinadoras trabalham muito e fazem muitas coisas bacanas, mas apesar disso procrastinam.
Perry é um filósofo e professor na Universidade de Stanford, mas também se intitula como um procrastinador estruturado, ou seja, “uma pessoa que faz muito ao não fazer outras coisas” (:15). Isso significa, nas palavras de Perry, que procrastinadores não são pessoas detestáveis ou preguiçosas, mas podem ser considerados por muitos “seres humanos eficientes, respeitados e admirados por tudo que realizam e pelo bom uso que fazem do seu tempo” (:21). Parece paradoxal?  É aí que está a beleza do livro.
O aparente paradoxo do livro é justamente porque Perry defende que muitos procrastinadores são na verdade pessoas que trabalham muito, mas teriam muita dificuldade com prazos deixando sempre as tarefas mais importantes para depois. Isso não significa que procrastinadores deixem de honrar com seus compromissos – mas o prazo e o tempo se tornam quase sempre um problema, pois as tarefas importantes são deixadas de lado e trocadas por outras nem tão importantes assim, ou podem até ser importantes, mas certamente menos urgentes.
Assim, não acredite que procrastinar é sinônimo de preguiça, muitas vezes é apenas uma questão de dominar o uso do tempo e listar prioridades. Sabe aquela velha e boa técnica de escrever uma lista de tarefas em um pedaço de papel? Perry diz que esta é uma das melhores técnicas para apaziguar as almas dos procrastinadores de plantão, pois as tarefas terminadas terão sido riscadas e estarão no papel para olharmos e nos alegrarmos com a finalização dela. Ele aconselha fazer uma lista diária, mas sempre com tarefas miúdas. Se houver uma grande tarefa, uma saída seria dividi-la em pequenos atos para que seja possível cumpri-la em um dia. A ideia é fazer a lista no dia anterior – pois não corremos o risco de adiar a tarefa de fazer a lista de tarefas. Se você tem por exemplo uma meta de estudar um livro ou analisar várias entrevistas, pode ser interessante listar pequenas tarefas para alcançar esta meta, pois assim conseguirá ver o seu progresso diariamente e em poucos dias terá feito muito. E verá que aquela tarefa que parecia intimidadora não era impossível de ser concluída. Mesmo tendo procrastinado um pouco.

O livro é bem-humorado e pode ser lido em uma tarde. Você pode procrastinar lendo este livro. Verá que procrastinar não precisa ser encarado como um pecado mortal – mas é importante conhecer estratégias para o uso do tempo e avaliação de prioridades.

Perry, John (2012). A arte da procrastinação: como realizar tarefas deixando-as para depois.

domingo, 5 de março de 2017

Livro: Como escrever um artigo acadêmico em 12 semanas

Para quem está planejando escrever e publicar um artigo recomendo um manual muito interessante: Como escribir um artículo académico en 12 semanas, de Wendy Laura Belcher. Infelizmente não há versão em português deste livro, apenas em espanhol e em inglês. Mas se conseguirem arranhar a leitura em espanhol, vale a pena.

O livro de Belcher tem seus capítulos organizados por semanas – há tarefas, propostas de cronograma e dicas bem pragmáticas para cada etapa do processo da escrita. A ideia é que seja possível planejar e escrever um artigo entendendo “as regras do jogo”, mas ao mesmo tempo sendo realista sobre tempo, disponibilidade e possibilidades. Nesse sentido, Belcher não se esquece que pesquisadoras trabalham, muitas com filhos ou tempo limitado pelo acúmulo de tarefas da vida cotidiana – por isso importa disciplina diária para completar os exercícios sugeridos no livro. Segundo Belcher, devemos nos organizar para ter ao menos quatro horas semanais de dedicação para a escrita do artigo: algo como 30 minutos por dia. Não parece impossível.

Em cada capítulo há 5 tarefas diárias específicas, pois a ideia é exercermos a rotina de escrita limitada diariamente, ou seja, escrever um pouco, mas todos os dias. Claro que não adiantará ler apenas o manual para chegar até a última página e ter um artigo pronto. Infelizmente o manual não funcionará por osmose: entre ler o livro e ter o artigo para submissão em uma revista há um percurso que somente a leitora poderá trilhar. “Fazer é aprender” diz Belcher, ou seja, ler os conselhos escritos não terá o mesmo efeito que praticar as tarefas relacionadas a eles. O livro não fará por você.


O manual serve como um guia e não deve necessariamente ser entendido como regra inflexível. Os capítulos podem ser lidos fora de ordem e não será nenhum pecado mortal levar um pouco mais tempo para fazer as tarefas do que o tempo sugerido pelo livro. O que não vale é desistir ou abandonar as metas no meio do caminho. 
E aí? Vamos tentar?

Belcher, Wendy Laura. Como escribir un artículo académico en 12 semanas: un guía para publicar con éxito. México: Flacso México, 2010.
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