Mostrando postagens com marcador criptomnésia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador criptomnésia. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de janeiro de 2016

Memória fotográfica pode justificar plágio?

Esta é uma história verídica, acontecida no finzinho dos anos 1990. Uma revista recebeu uma reclamação de um autor, que descobriu ter sido plagiado em um artigo publicado no periódico. Segundo o conselho editorial, os trechos copiados contemplavam “não apenas frases sem as devidas aspas mas parágrafos inteiros”; segundo o autor, o artigo era, quase em sua totalidade, uma colagem de palavras suas. O debate se instalou, e o pseudoautor acusado do malfeito enviou carta aos editores, em que explicava o ocorrido:

Quanto ao episódio em si (o aparente plágio por mim praticado), devo dizer que se trata de um inadvertido e aprofundado estudo que fiz do [título do livro], de [autor do livro], a tal ponto esmiuçado (e proveitoso para minha formação!) que prática e imperceptivelmente, acabei por decorar passagens inteiras do ensaio [...].
Eye-eye (Kimberly Brown-Azzarello, 2005)
Ao lado do descuido com as notas de leitura e do desconhecimento das regras de normalização, a memória fotográfica nos parece uma das alegações mais frequentes de quem se vê acusado de plágio. Mas dizer-se traído pela própria memória, infelizmente, não isenta ninguém de punição pela cópia indevida. No máximo, favorece uma hipótese inocente: a da não intencionalidade do ato, que não seria, portanto, uma fraude.

Muitos de nós temos um estilo de aprendizagem que as ciências cognitivas chamam de “aprendiz visual” — assimilamos com mais facilidade aquilo que captamos com os olhos; memorizamos a informação em imagem. Num raciocínio um pouco torto, há quem justifique que uma memória visual muito boa nos levaria eventualmente a achar que criamos algo, quando na verdade estamos apenas nos lembrando desse algo: uma espécie de criptomnésia, como a que teria acometido o pseudoautor do caso acima.

Culpar a memória pelo plágio acadêmico não nos parece uma justificativa inteligente. A memória não é tão fotográfica assim a ponto de nos fazer recitar, de cor, palavras, pontuações, trechos inteiros. A pesquisa diz que a memória fotográfica assim descrita sequer existe; se aparecem casos de memória prodigiosa por aí, é apenas como exceções que intrigam as neurociências.

Mas há uma razão ainda mais forte para a memória fotográfica não justificar o plágio. Um texto acadêmico é precedido de intensas horas de leitura e estudo, e localizar argumentos — mapear posições teóricas e achados empíricos entre autores — é uma habilidade preciosa. Por isso, não pode haver leituras ingênuas que serão repetidas despercebidamente na escrita. Quer uma dica para ajudar sua memória? Use softwares gerenciadores de bibliografia. Você os conhece?

O podcast de hoje provoca a tese da memória fotográfica como argumento para inocentar o plágio. É um trecho do quarto capítulo de Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra.



Leia aqui a transcrição do áudio.
Tecnologia do Blogger.

Envie-nos sua dúvida ou história de plágio

Nome

E-mail *

Mensagem *