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domingo, 24 de abril de 2016

Se tem pressão, tem plágio?

A interrogação que inaugura este post é sobre uma intuição comum, a de que o plágio resulta da pressão por publicar. A equação seria simples: pressa contemporânea mais avaliações quantitativas é igual a má-conduta na publicação. Se é verdade que os pesquisadores têm mais vantagens acadêmicas quanto mais extenso for seu currículo de publicações, também é fato que o tempo para pesquisar, escrever, publicar produtivamente não é o mesmo do mundo ideal. A saída? Segundo o pressuposto que exploramos aqui, tornar-se autor convidado ou presenteado, repetir-se em publicações-salame ou autoplágios, ou mesmo plagiar. Na luta pela sobrevivência, o pesquisador se veria vítima das circunstâncias. Será?

Tictac (Daniel Novta, 2011)
Como conversa e controvérsia se movem por evidências, hoje nossa discussão contrasta dois artigos sobre fatores capazes de macular a integridade acadêmica. A eles:

Em 2014, Joeri Tijdink, Reinout Verbeke e Yvo Smulders publicaram os resultados de um questionário aplicado a 315 pesquisadores médicos em Flandres, na Bélgica. O tema era a associação entre pressão para publicar, avaliada como “muito alta” por 72% dos respondentes, e más-condutas acadêmicas autodeclaradas, tais como falsificação e fabricação de dados, autoria presenteada (alegada por massivos 69% dos participantes da pesquisa) e plágio. O estudo, segundo o qual 15% dos pesquisadores afirmaram ter fabricado, falsificado, plagiado ou manipulado dados nos três anos anteriores, trouxe duas conclusões que chamam nossa atenção: a de que, quanto mais jovens e novos na carreira, maior é o índice de más-condutas entre os pesquisadores médicos europeus; e a de que a demasiada pressão pela publicação de artigos leva à má-conduta. O raciocínio recorre à psicologia do fenômeno: pressão gera estresse, e este induz ao comportamento arriscado. Voltando a falar em equações, aqui diríamos que pressão mais estresse é igual a falta ética.

No ano seguinte, Daniele Fanelli, Rodrigo Costas e Vincent Larivière apresentaram os resultados de um estudo retrospectivo, entre informações sobre autores e peças bibliográficas retratadas ou corrigidas de 2010 a 2011, para verificar hipóteses comuns sobre que fatores poriam em risco a integridade em ciência. O estudo recuperou, da base Web of Science, 611 artigos retratados e 2.226 artigos corrigidos, os quais correspondiam a um total de 47.890 autores. Sua conclusão opõe-se à de Tijdink, Verbeke e Smulders: não foi encontrada correlação significativa entre pressão para publicar e prejuízo à integridade — há menor ou igual possibilidade de retratação em países onde carreiras individuais e financiamentos a instituições são estimulados pelas métricas bibliográficas. Na verdade, fatores como ausência de políticas nacionais de integridade acadêmica e inexperiência do pesquisador mostraram-se mais relevantes. A chance de retratações é menor em países com políticas e infraestrutura para lidar com más-condutas; além disso, autores em início de carreira têm maior chance de assinar artigos retratados.

Desenhos diferentes, resultados também. Se houve convergência entre os achados de ambos os estudos, foi a noção de que principiantes na carreira de pesquisadores são mais tendentes a falhar. E é verdade, talvez o pai do erro seja, muitas vezes, a ignorância das regras acadêmicas, por isso é preciso sempre orientar, capacitar estudantes, pesquisadores e professores — como dizemos por aqui, sair do silêncio e do tabu.

Quanto à pressão por publicar, os resultados são díspares, mas não nos impedem de problematizar essa suposta relação de causalidade. Como assim? Há pesquisadores muito produtivos que não recorrem ao plágio para engordar suas métricas bibliográficas. E, por outro lado, o plágio é coisa antiga, pois já acontecia desde tempos muito anteriores à pressão. Uma coisa não implica obrigatoriamente a outra. Não é que não haja pressão: ela existe, mas seus efeitos podem ser bem mais diversos que o equívoco ético. Por isso, acreditamos que não: se tem pressão, não necessariamente vai ter plágio ou outras más-condutas, pois para havê-los é preciso mais do que pressa. Existe um ingrediente de desonestidade no plágio, ou talvez de profunda ingenuidade, que não podemos negligenciar.

Mas resta uma pergunta: se é mito que o publish or perish causa o malfeito, por que se recorre tanto a ele como explicação para o escândalo? Fanelli, Costas e Larivière arriscam uma resposta em seu artigo, mas queremos também ouvir você. Diz aí.

No podcast de hoje, falamos de tempo e escrita. Como sobreviver à pressão por publicar?


Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 10 de abril de 2016

Autoplágio, o fantasma

O tema do post de hoje não existe. É um fantasma. Simples assim: autoplágio é uma contradição, um conceito paradoxal pela própria natureza do fenômeno que ele nomeia: se plagiar é apropriar-se indevidamente de palavras alheias, não faz muito sentido a ideia de plagiar a si mesmo. Claro que esse é um problema conceitual, mas, como todo fantasma, isso não quer dizer que o autoplágio não cause espanto — nesse caso, um espanto ético com a autorrepetição.

Por que o autoplágio ofende, se ele sequer existe? Por preocupações éticas: o desrespeito ao tempo de quem se vê lendo mais do mesmo enquanto poderia estar lidando com artigos originais ou dados novos; e, especialmente, o uso oportunista da repetição na corrida por métricas, num paradigma de avaliação quantitativa em que é mais beneficiado quem mais produz. A duplicação de si tem, nesse caso, motivações desleais e efeitos de engordamento despropositado da literatura — um argumento sustentado, aliás, por essa ferramenta ao justificar a necessidade de varreduras para detectar autoplágios.

Em certos cenários, porém, a autorrepetição é necessária e até desejada. São casos em que há um propósito argumentativo — novos contextos, mudanças no argumento ou aprimoramento de ideias de um autor requerem a retomada do já-dito em um outro texto. Ideias e palavras se repetem, mas não há clones despropositados de si. Nem sempre é fácil avaliar a fronteira entre repetição necessária ou conveniente; talvez isso deva ser observado caso a caso, como já apontaram editores de periódico preocupados com o limite entre semelhança e plágio.

Espelho refletindo vaso (CGS, 2003)
Para finalizarmos, uma dica de ouro e um cuidado especial. A dica: na dúvida, sempre cite. A transparência é a melhor regra de sobrevivência na comunicação acadêmica. Se for preciso repetir-se, coloque uma nota de rodapé evidenciando sua reflexão anterior. E o cuidado: se aquilo que se pretende dizer novamente já foi publicado por um periódico, esse periódico detém os direitos autorais da publicação. O repeteco do artigo, mesmo que da mesma autoria, será limitado legalmente.




Muitas das ideias discutidas neste blog já foram propostas em linguagem de livro, em Plágio: palavras escondidas, mas pode confiar: este não é um autoplágio. E por falar em repetições aceitáveis, no podcast de hoje, discutimos dois casos em que a autorrepetição é bem-vinda na comunicação acadêmica. Ouça e compartilhe suas ideias conosco. Você pode nos escrever em palavrasescondidas@anis.org.br.

Leia aqui a transcrição do áudio.
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