Você já brincou de telefone sem fio? Se sim (e esperamos que sim!), sabe que a graça é quando a mensagem chega corrompida ao final, depois de passar por vários intermediários. O efeito mexeriqueiro, de fofoca aumentada ou alterada, é bem-vindo na brincadeira, mas certamente não na comunicação acadêmica. E onde está o risco de ele aparecer? No uso do apud — que, se nossa retórica for boa, até o fim deste post você estará convencido a abolir.
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Catherine Stones' Chinese whispers (Helen Harrop, 2009)
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A palavra apud é uma preposição da língua latina. Significa “perto de”, “adjacente a”, “em”. Na escrita acadêmica, denota algo como “retirado da obra de”. Então, se cito Silva apud Soares, é porque cito Silva conforme ele foi citado por Soares. Menciono Silva indiretamente — na verdade, apenas li Soares, que por sua vez foi quem de fato leu e citou Silva. É uma citação de segunda mão. Nos termos da ABNT (na NBR 10:520, de 2002), uma “citação direta ou indireta de um texto em que não se teve acesso ao original”.
A impossibilidade de encontrar o original é o que justificaria o uso do apud — algo relativizado por este editorial, afinal, se o autor intermediário pôde citar a fonte, é porque ela deve ser acessível de alguma maneira. E pensemos bem: neste mundo digital, de abundância de informações, de uma infinidade de obras traduzidas para o português, fonte inacessível só pode ser um caso de raridade.
Quem usa apud em tempos atuais, especialmente para autores reconhecidos e amplamente disponíveis (os Foucaults, Hawkings, Hobsbawms e tantos mais da biblioteca acadêmica), revela uma postura suspeita: a preguiça de ler, de interpretar, de pensar. E corre um risco danado ao confiar numa leitura intermediária: o de repetir erros de transcrição, na citação literal; ou equívocos de interpretação, na paráfrase. Cita por tabela, engana-se também por tabela.
Melhor seguir a diretriz do CNPq: “quando estiver descrevendo o trabalho de outros, o autor não deve confiar em resumo secundário desse trabalho, o que pode levar a uma descrição falha do trabalho citado”. E o conselho arremata: “sempre que possível consultar a literatura original”. Assim, pedimos licença para sentenciar: ao apud, resta o rótulo de expressão fossilizada. E, se ele é tanto fóssil como perigosa expressão de preguiça, que tal deixá-lo noutro lugar? Nossa sugestão é longe de nossos textos —
no cantinho do desuso e do esquecimento.
No podcast de hoje, falamos um pouco mais sobre o apud e seus riscos, inclusive o de plágio. Compartilhe conosco suas impressões ou opiniões. Adoraremos ouvi-las.
Leia aqui a transcrição do áudio.