domingo, 27 de março de 2016

As teclas e o plágio-cópia

E você? Já sentiu o faro do déjà vu?
Estou lendo um texto, avanço em linhas, parágrafos, páginas, até que… opa! O irresistível faro do déjà-vu me faz parar e levantar a cabeça. Já li isso antes? Onde? Quando? No tremor da suspeita, estendo a pausa: o texto então se submete a outra leitura, aquela de um software caça-plágio. Ou, talvez pelo mesmo mecanismo de que trata este post, seleciono um trecho, copio e colo, e faço uma busca simples na internet.

O veredito não se demora: se encontrado o mesmo texto, porém com outra assinatura, é porque estou diante de um caso de cópia indevida. Um caso de plágio-cópia, como foi chamada essa infração textual no livro Plágio: palavras escondidas. Eu, leitora, me desiludo ao perceber frustrada minha expectativa de sinceridade autoral. Ele, plagiador, tem pernas curtas como a mentira. Tem dedos ágeis sobre as teclas. Mas não tem voz.

Evite essa perigosa equação: use aspas
Ctrl C + Ctrl V é a metáfora digital mais frequente para esse plágio que se nutre da cópia simples. Não há tentativa de dissimulação, não há diferenças entre os textos. O clone textual seria perfeito, não fosse por um detalhe: o crédito de autoria aparecer com nome diverso.

O plágio-cópia pode parecer tolo pela obviedade do flagrante, mas nem por isso é fenômeno raro. Ele angustia professoras, atormenta revisoras e editoras de periódico. Já gerou retratações (esta, por exemplo) e recentemente inspirou uma controvérsia entre docentes de universidades brasileiras. Nossa recomendação: fuja do atalho das teclas. Domine as regras de citação e paráfrase e se garanta em sua voz autêntica de autor. Se você tem dúvidas sobre esses dois mecanismos da escrita acadêmica, escreva para nós. Faça também um passeio por aqui: veja nossos posts anteriores.

No podcast de hoje, falamos desse sujeito emudecido que faz plágio-cópia. Quem é ele e quais seriam suas desrazões?



Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 20 de março de 2016

Apud, a preguiça fossilizada

Você já brincou de telefone sem fio? Se sim (e esperamos que sim!), sabe que a graça é quando a mensagem chega corrompida ao final, depois de passar por vários intermediários. O efeito mexeriqueiro, de fofoca aumentada ou alterada, é bem-vindo na brincadeira, mas certamente não na comunicação acadêmica. E onde está o risco de ele aparecer? No uso do apud — que, se nossa retórica for boa, até o fim deste post você estará convencido a abolir.

Catherine Stones' Chinese whispers (Helen Harrop, 2009)
A palavra apud é uma preposição da língua latina. Significa “perto de”, “adjacente a”, “em”. Na escrita acadêmica, denota algo como “retirado da obra de”. Então, se cito Silva apud Soares, é porque cito Silva conforme ele foi citado por Soares. Menciono Silva indiretamente — na verdade, apenas li Soares, que por sua vez foi quem de fato leu e citou Silva. É uma citação de segunda mão. Nos termos da ABNT (na NBR 10:520, de 2002), uma “citação direta ou indireta de um texto em que não se teve acesso ao original”.

A impossibilidade de encontrar o original é o que justificaria o uso do apud — algo relativizado por este editorial, afinal, se o autor intermediário pôde citar a fonte, é porque ela deve ser acessível de alguma maneira. E pensemos bem: neste mundo digital, de abundância de informações, de uma infinidade de obras traduzidas para o português, fonte inacessível só pode ser um caso de raridade.

Quem usa apud em tempos atuais, especialmente para autores reconhecidos e amplamente disponíveis (os Foucaults, Hawkings, Hobsbawms e tantos mais da biblioteca acadêmica), revela uma postura suspeita: a preguiça de ler, de interpretar, de pensar. E corre um risco danado ao confiar numa leitura intermediária: o de repetir erros de transcrição, na citação literal; ou equívocos de interpretação, na paráfrase. Cita por tabela, engana-se também por tabela.

Melhor seguir a diretriz do CNPq: “quando estiver descrevendo o trabalho de outros, o autor não deve confiar em resumo secundário desse trabalho, o que pode levar a uma descrição falha do trabalho citado”. E o conselho arremata: “sempre que possível consultar a literatura original”. Assim, pedimos licença para sentenciar: ao apud, resta o rótulo de expressão fossilizada. E, se ele é tanto fóssil como perigosa expressão de preguiça, que tal deixá-lo noutro lugar? Nossa sugestão é longe de nossos textos — no cantinho do desuso e do esquecimento.

No podcast de hoje, falamos um pouco mais sobre o apud e seus riscos, inclusive o de plágio. Compartilhe conosco suas impressões ou opiniões. Adoraremos ouvi-las.


Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 6 de março de 2016

Paráfrase: como reescrever com as próprias palavras?

Você provavelmente já ouviu que parafrasear é “reescrever um texto com suas palavras”. De fato, parafrasear é repetir: com a citação literal, que abordamos no último post, ela compõe a dupla de recursos que nos permitem ecoar ideias, palavras, dados encontrados pela literatura afora. E, se a citação literal é uma estratégia a ser usada com moderação, o mesmo não se pode ser dito quanto à paráfrase — fazer citações indiretas (termo usado por normas como a ABNT) é, talvez, o recurso textual mais frequente na escrita acadêmica.


Na paráfrase, só não vale copiar
Parafrasear é lançar-se ao exercício de compreensão e apreensão textual: lemos e relemos o texto, nos certificamos de que entendemos seu argumento, para então explicá-lo resumidamente, com outros vocábulos e novas estruturas gramaticais (confira na figura ao lado um resumo dos passos para fazer uma paráfrase). Nesse exercício, duas regras valem ouro e caminham juntas: a da fidelidade e a da honestidade.


A fidelidade significa que a paráfrase deve manter-se conforme ao texto original; a autora que parafraseia redige um texto novo, porém sinônimo àquele da autora parafraseada. Não vale infiltrar interpretações não contidas no argumento original, não vale distorcer aquilo que foi dito. Quem parafraseia assume responsabilidade pelo que afirma em nome de outra autora.

A honestidade, assim como na citação literal, nos leva a observar uma convenção de escrita: deve-se indicar o autor e o ano da obra parafraseada, listando-a, consequentemente, entre as referências bibliográficas. Esse é um sinal ético de respeito e transparência perante a leitora — que poderá, inclusive, usar as pistas de localização oferecidas por essa convenção para ir até a fonte citada.

Fidelidade, honestidade, transparência: veja que uma boa paráfrase expressa, no fim das contas, integridade acadêmica. Como a citação direta, sua elaboração adequada afasta o plágio. Mas como fazer uma boa paráfrase? O que quer dizer “reescrever um texto com palavras próprias”? Ouça nosso podcast sobre o tema. E, tendo dúvidas ou percepções diferentes, escreva para nós. Será um prazer trocar ideias com você.


Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Toquem as trombetas, porque as aspas estão no ar!

A escrita acadêmica é econômica quanto aos recursos para repetir o que foi dito por autoras anteriores a nós. São apenas duas estratégias, a citação literal e a paráfrase, que normas como a da ABNT chamam de citação direta e citação indireta. O tema deste post é a citação literal: aquela em que se transcrevem exatamente as palavras da autora que nos inspira, igualzinho-que-nem no original. E existe um formato para essa repetição: a citação literal precisa ser autorizada pelo uso das aspas. Portanto, toquem as trombetas, pois as aspas já estão no ar!

As aspas estendem o tapete vermelho para a
passagem de outro autor pelo texto
A citação literal é uma cópia com pedido de licença, uma espécie de cópia consentida. E esse consentimento é obtido, além do uso das aspas, pela indicação de autora, data e página de onde veio o trecho transcrito (a imagem de nosso último post é um exemplo dessa prescrição). A exigência de página é um detalhe fundamental: diferencia a citação literal da paráfrase e informa à leitora a localização precisa daquelas palavras na fonte consultada. Sem as aspas, a leitora pressuporá que as palavras são de quem assina o texto como autor, por isso o maior risco corrido por um escritor descuidado ao esquecer as aspas é o de ser acusado de plágio. Sim: citação literal sem aspas é plágio, mesmo que se inclua a fonte entre as referências. Acredite, há controvérsias de plágio por aspas esquecidas (este caso, por exemplo).

Aspas, pra que vos quero? No livro A arte da pontuação, o agente literário Noah Lukeman diz que as aspas funcionam como trombetas: anunciam a entrada de uma nova voz no texto. É por isso que seu uso é tão importante: mais do que um sinal estético de pontuação ou tipografia, elas têm o sentido ético de reconhecer a outra voz que assume, por breves linhas, o microfone do texto. E é também por isso que as aspas — mais precisamente a citação literal — devem ser usadas com comedimento. Afinal, é à nossa expressão criativa que a leitora dedicará seu tempo, não a ecos alheios costurados em nosso texto.

Abramos alas, então, para o podcast de hoje, que dá dicas sobre a citação literal. Aprecie sem moderação: compartilhe conosco sua dúvida ou opinião sobre o uso das aspas.




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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pra que serve a normalização bibliográfica?

E então você vai escrever um texto acadêmico e é orientado a usar as normas da ABNT, a Associação Brasileira de Normas Técnicas. Ou da APA (American Psychology Association), se escreve no campo da psicologia; ou ainda de Vancouver, se escreve no campo das ciências da saúde. Há ainda muitas outras normas, mas isso tanto faz para o tema deste post. O que nos inquieta aqui é: pra que servem essas normas? Por que temos de segui-las? Qual é a relevância delas?

Começamos pela negação: normalização bibliográfica não é burocracia da escrita, nem implicância de orientador obstinado, nem estética despretensiosa. Agora afirmamos: um texto de acordo com as convenções bibliográficas demonstra pertencimento à comunidade acadêmica — ao observar as convenções, o autor revela que sabe transitar pelas regras que orientam a comunicação. E demonstra, sobretudo, respeito a um dos princípios éticos mais delicados e importantes em ciência, o de reconhecimento e atribuição das fontes.

Citação literal em Plágio: palavras escondidas
Sabemos que, para avançar no conhecimento, subimos nos ombros dos gigantes que nos antecederam: pesquisamos a literatura, lemos autores que já enveredaram por nosso tema de pesquisa, e então traçamos nossa rota de aprofundamento. Citar e referenciar é a forma como se materializa em nossos textos esse reconhecimento de autores que vieram antes de nós. E as normas bibliográficas prescrevem justamente essa forma: indicam como devem aparecer as citações e as referências numa peça acadêmica. Essa padronização traz clareza e uniformidade à publicação, permite o acesso às informações em que nos baseamos em nossos textos e — algo muito importante — nos afasta do risco de plágio por não atribuição das fontes, ou mesmo por atribuição no formato inadequado (esquecimento das aspas em citação literal, por exemplo).

Sinta-se convidado a ouvir o podcast de hoje: o assunto é citação e referência, essa dupla regida pela normalização bibliográfica. E conte para nós suas inquietações sobre o tema.



Leia aqui a transcrição do áudio.
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