domingo, 6 de março de 2016

Paráfrase: como reescrever com as próprias palavras?

Você provavelmente já ouviu que parafrasear é “reescrever um texto com suas palavras”. De fato, parafrasear é repetir: com a citação literal, que abordamos no último post, ela compõe a dupla de recursos que nos permitem ecoar ideias, palavras, dados encontrados pela literatura afora. E, se a citação literal é uma estratégia a ser usada com moderação, o mesmo não se pode ser dito quanto à paráfrase — fazer citações indiretas (termo usado por normas como a ABNT) é, talvez, o recurso textual mais frequente na escrita acadêmica.


Na paráfrase, só não vale copiar
Parafrasear é lançar-se ao exercício de compreensão e apreensão textual: lemos e relemos o texto, nos certificamos de que entendemos seu argumento, para então explicá-lo resumidamente, com outros vocábulos e novas estruturas gramaticais (confira na figura ao lado um resumo dos passos para fazer uma paráfrase). Nesse exercício, duas regras valem ouro e caminham juntas: a da fidelidade e a da honestidade.


A fidelidade significa que a paráfrase deve manter-se conforme ao texto original; a autora que parafraseia redige um texto novo, porém sinônimo àquele da autora parafraseada. Não vale infiltrar interpretações não contidas no argumento original, não vale distorcer aquilo que foi dito. Quem parafraseia assume responsabilidade pelo que afirma em nome de outra autora.

A honestidade, assim como na citação literal, nos leva a observar uma convenção de escrita: deve-se indicar o autor e o ano da obra parafraseada, listando-a, consequentemente, entre as referências bibliográficas. Esse é um sinal ético de respeito e transparência perante a leitora — que poderá, inclusive, usar as pistas de localização oferecidas por essa convenção para ir até a fonte citada.

Fidelidade, honestidade, transparência: veja que uma boa paráfrase expressa, no fim das contas, integridade acadêmica. Como a citação direta, sua elaboração adequada afasta o plágio. Mas como fazer uma boa paráfrase? O que quer dizer “reescrever um texto com palavras próprias”? Ouça nosso podcast sobre o tema. E, tendo dúvidas ou percepções diferentes, escreva para nós. Será um prazer trocar ideias com você.


Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Toquem as trombetas, porque as aspas estão no ar!

A escrita acadêmica é econômica quanto aos recursos para repetir o que foi dito por autoras anteriores a nós. São apenas duas estratégias, a citação literal e a paráfrase, que normas como a da ABNT chamam de citação direta e citação indireta. O tema deste post é a citação literal: aquela em que se transcrevem exatamente as palavras da autora que nos inspira, igualzinho-que-nem no original. E existe um formato para essa repetição: a citação literal precisa ser autorizada pelo uso das aspas. Portanto, toquem as trombetas, pois as aspas já estão no ar!

As aspas estendem o tapete vermelho para a
passagem de outro autor pelo texto
A citação literal é uma cópia com pedido de licença, uma espécie de cópia consentida. E esse consentimento é obtido, além do uso das aspas, pela indicação de autora, data e página de onde veio o trecho transcrito (a imagem de nosso último post é um exemplo dessa prescrição). A exigência de página é um detalhe fundamental: diferencia a citação literal da paráfrase e informa à leitora a localização precisa daquelas palavras na fonte consultada. Sem as aspas, a leitora pressuporá que as palavras são de quem assina o texto como autor, por isso o maior risco corrido por um escritor descuidado ao esquecer as aspas é o de ser acusado de plágio. Sim: citação literal sem aspas é plágio, mesmo que se inclua a fonte entre as referências. Acredite, há controvérsias de plágio por aspas esquecidas (este caso, por exemplo).

Aspas, pra que vos quero? No livro A arte da pontuação, o agente literário Noah Lukeman diz que as aspas funcionam como trombetas: anunciam a entrada de uma nova voz no texto. É por isso que seu uso é tão importante: mais do que um sinal estético de pontuação ou tipografia, elas têm o sentido ético de reconhecer a outra voz que assume, por breves linhas, o microfone do texto. E é também por isso que as aspas — mais precisamente a citação literal — devem ser usadas com comedimento. Afinal, é à nossa expressão criativa que a leitora dedicará seu tempo, não a ecos alheios costurados em nosso texto.

Abramos alas, então, para o podcast de hoje, que dá dicas sobre a citação literal. Aprecie sem moderação: compartilhe conosco sua dúvida ou opinião sobre o uso das aspas.




Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pra que serve a normalização bibliográfica?

E então você vai escrever um texto acadêmico e é orientado a usar as normas da ABNT, a Associação Brasileira de Normas Técnicas. Ou da APA (American Psychology Association), se escreve no campo da psicologia; ou ainda de Vancouver, se escreve no campo das ciências da saúde. Há ainda muitas outras normas, mas isso tanto faz para o tema deste post. O que nos inquieta aqui é: pra que servem essas normas? Por que temos de segui-las? Qual é a relevância delas?

Começamos pela negação: normalização bibliográfica não é burocracia da escrita, nem implicância de orientador obstinado, nem estética despretensiosa. Agora afirmamos: um texto de acordo com as convenções bibliográficas demonstra pertencimento à comunidade acadêmica — ao observar as convenções, o autor revela que sabe transitar pelas regras que orientam a comunicação. E demonstra, sobretudo, respeito a um dos princípios éticos mais delicados e importantes em ciência, o de reconhecimento e atribuição das fontes.

Citação literal em Plágio: palavras escondidas
Sabemos que, para avançar no conhecimento, subimos nos ombros dos gigantes que nos antecederam: pesquisamos a literatura, lemos autores que já enveredaram por nosso tema de pesquisa, e então traçamos nossa rota de aprofundamento. Citar e referenciar é a forma como se materializa em nossos textos esse reconhecimento de autores que vieram antes de nós. E as normas bibliográficas prescrevem justamente essa forma: indicam como devem aparecer as citações e as referências numa peça acadêmica. Essa padronização traz clareza e uniformidade à publicação, permite o acesso às informações em que nos baseamos em nossos textos e — algo muito importante — nos afasta do risco de plágio por não atribuição das fontes, ou mesmo por atribuição no formato inadequado (esquecimento das aspas em citação literal, por exemplo).

Sinta-se convidado a ouvir o podcast de hoje: o assunto é citação e referência, essa dupla regida pela normalização bibliográfica. E conte para nós suas inquietações sobre o tema.



Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Plágio: por que o silêncio?

Nas últimas semanas, fizemos uma jornada de leitura de Plágio: palavras escondidas, livro que inspirou a criação deste blog. Abordamos temas selecionados de cada capítulo: desde o engano do leitor até a imitação criativa, a memória fotográfica, a autoria acadêmica, a diferença entre ética em pesquisa e em publicação, a retratação. Uma das conclusões de Debora Diniz e Ana Terra no livro é que, para falar de plágio, é preciso tagarelar sobre assuntos paralelos.

Silence (Alberto Ortiz, 2007)
Aqui e no livro, falou-se bastante, é verdade. Em nossos cotidianos acadêmicos, porém, o que teima em aparecer ainda é silêncio e tabu. Por isso, encerramos esta jornada de leitura reforçando o convite feito já em nosso primeiro post: precisamos falar de plágio, integridade, escrita na universidade — nas salas de aula, nos grupos de pesquisa, nos eventos acadêmicos. Se, de um lado, nenhum pesquisador nasce sabendo as convenções da escrita acadêmica, de outro, ousamos um interdito: o ponto final dessa conversa jamais deve ser um carimbo de retratação.


Convite feito, resta uma indagação: afinal, por que se faz silêncio sobre plágio? Ensaiamos uma resposta no podcast de hoje, que é um trecho do capítulo final de Plágio: palavras escondidas. Participe conosco desta conversa. Será um prazer ouvir sua voz por aqui.



Leia aqui a transcrição do áudio.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Triste fim de uma publicação acadêmica: a retratação

O que acontece quando se encontra um erro num artigo já publicado? Das duas, uma: ou o artigo será corrigido ou, na pior hipótese, será retratado. Em 2009, o Comitê de Ética na Publicação (COPE) desenhou diretrizes para auxiliar na tomada de decisão: uma publicação deverá ser retratada se divulgar resultados não confiáveis — por equívoco honesto ou por fraude; se não for inédita (um indesejado caso de redundância na literatura); se tiver plágio; ou se derivar de estudo que feriu princípios éticos em pesquisa.

Marca d'água sobre artigo retratado
De editores a autores, a retratação incomoda muita gente. Para os editores, publicar uma nota de retratação é fazer um pedido público de desculpas à comunidade acadêmica: no amontoado de originais concorrendo para serem aceitos, a revista selecionou justamente o manuscrito problemático. Por isso, retratar uma publicação é também uma forma de remendar a literatura, garantindo a integridade do conhecimento acadêmico e a transparência diante da comunidade de leitores — aquele artigo não será mais indicado como fonte confiável e merecedora de leitura, menos ainda de citação.

Por ter nascido noutro lugar
(Francisco Goya, c. 1810-1811)
Para os autores, ter um artigo retratado é uma sentença de constrangimento que pode chegar ao ostracismo: o carimbo vermelho que anula o texto parece anular, também, o respeito e a confiabilidade daquele pesquisador perante seus pares acadêmicos. O autor será relegado àquele cantinho da sala onde antigamente se castigava a criança mal-comportada: emudecido e ornado com o chapéu da vergonha.

O podcast de hoje fala desse triste fim da publicação acadêmica, a retratação. É um trecho do sexto capítulo de Plágio: palavras escondidas, livro de Debora Diniz e Ana Terra.


Leia aqui a transcrição do áudio.
Tecnologia do Blogger.

Envie-nos sua dúvida ou história de plágio

Nome

E-mail *

Mensagem *