domingo, 3 de julho de 2016

O desafio da paráfrase


O tema da repetição na escrita tem sido recorrente por aqui. Falamos também sobre como a citação e a paráfrase são bons exercícios para evitarmos uma acusação de plágio. Mas hoje gostaria de fazer uma provocação: o que fazer para evitarmos que um texto seja mal interpretado pelo leitor e a paráfrase indicar aquilo que nunca teria sido escrito pela autora original?

Debora Diniz e Ana Terra relembram no livro Plágio: Palavras Escondidas a afirmação de Umberto Eco[1] sobre as permanentes ressignificações de um texto lido e as rotas argumentativas inauguradas por uma leitora. Nesse sentido a paráfrase não seria “propriedade do autor original” (p. 75), mas uma criação do leitor. Faz sentido afirmarmos que a responsabilidade por uma citação é apenas daquele que cita, por isso a importância de sempre buscarmos as autoras originais e não fontes secundárias em nossas rotinas de estudo.

Ao mesmo tempo devemos estar atentas, pois nem tudo vale em uma paráfrase – importa manter a coerência com o trecho citado e a obra. É importante mantermos cautela quando citamos autores, principalmente quando ainda temos pouco domínio daquilo que escreveram. Como falar, por exemplo, de Michel Foucault ou Judith Butler lendo apenas o capítulo da tese de sua colega que estudou as obras? Ou com a leitura apenas da introdução ou conclusão de um de seus livros? A resposta a essas perguntas pode trazer discussões acaloradas sobre qual seria então o momento em que estaríamos prontas para citar um autor forte. E aqui minha dica é simples, talvez até covarde:

Menos é mais.

Ou seja: gosta de Foucault? Quer citá-lo em sua monografia? Estude em profundidade um ou dois de seus livros. Conheça o seu ritmo de leitura e aos poucos estará pronta para ler a obra inteira, se assim desejar. Mas lembre-se: a leitura e estudo de um texto teórico é mais lenta que a de um livro de literatura que leríamos nas horas vagas.

Acha pouco citar apenas um livro? Se um jovem pesquisador dominar o que um autor forte escreveu em uma de suas obras tenho certeza que já terá uma bonita discussão teórica no artigo ou monografia.

Você também pode conferi o podcast aqui:





[1] Eco, Umberto. Confissões de um jovem romancista. Tradução: Marcelo Pen. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
Diniz, Debora; Terra, Ana. Plágio: palavras escondidas. Brasília: LetrasLivres; Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2014.

domingo, 26 de junho de 2016

Primeiros passos para evitar um plágio não-intencional

No início da caminhada acadêmica não é surpresa se deparar com o plágio cometido por estudantes desavisados. Jovens estudantes – e ousaria dizer que até pesquisadores experientes – no momento em que são acusados de plágio e, quando sua materialidade fica comprovada, defendem-se dizendo que o ato foi não-intencional.

No último post falamos sobre a importância de aprender a ler e pensar o lido para o exercício da repetição como uma das etapas para nos tornarmos autoras. Repetir não é necessariamente sinônimo de plágio – e por isso há dicas simples para evitarmos o fantasma da pseudoautoria.

1.     A memória nos trai: o caminho para a escrita de um artigo, trabalho de conclusão de disciplina, monografia, teses e dissertações é longo. Isso significa que lemos e estudamos muitas fontes antes de iniciarmos a escrita. Alguns estudantes acusados de plágio justificam que as palavras alheias podem ficar na lembrança e se confundem com o texto no momento da escrita. Aqui é importante não confundir plágio com as rotas que percorremos durante o estudo e que nos influenciam na escrita. Na dúvida sempre cite as fontes.
2.     Organize as anotações de leitura: há quem goste de ler escrevendo. Um caderno colorido ou folhas de papel em branco acompanham muitos estudantes durante as horas de leitura. Novamente a repetição é exercício nas notas e fichamentos – estudantes copiam trechos e registram o lido. Mas notas pouco organizadas ou buscadas tempos depois da leitura devem sempre ser encaradas com atenção. Um trecho escrito em pedaço de papel pode ser do autor lido, mas um estudante desatento toma aquele trecho escrito a lápis como seu quando retorna meses depois ao papel empilhado em sua escrivaninha. Há uma dica simples que pode evitar o esquecimento sobre o que registramos em nossas notas de leitura: diferenciar as cores das primeiras ideias escritas a partir do texto dos trechos ainda não elaborados da leitura pode ser um primeiro passo para impedir um plágio desavisado. Se gosta de escrever a mão use, por exemplo, caneta para as notas ainda não elaboradas e lápis para uma nova ideia.
3.     Domine as regras da escrita acadêmica e normalização bibliográfica: não vale dizer que odeia a ABNT e que por isso faz questão de ignorá-la. Após uma acusação de plágio valerá pouco dizer que apenas se esqueceu de colocar autor-ano entre parênteses ou esqueceu o recuo das citações diretas. Aprender as regras básicas da escritura acadêmica nos custa muito pouco e evitará uma dor de cabeça futura. Aqui não é apenas a ABNT que importa – se vai enviar um artigo para uma revista certifique-se das normas editoriais.


Espero vocês em uma próxima oportunidade. Um grande abraço.

Você pode também conferir o Podcast aqui: 

https://soundcloud.com/palavrasescondidas/primeiros-passos-para-evitar-um-plagio-nao-intencional 


domingo, 12 de junho de 2016

O exercício da repetição na escritura acadêmica


A primeira lição que aprendemos na vida acadêmica é o da leitura – e no pacote também aprendemos como fazer repetição de textos e autoras. Em provas e trabalhos finais de disciplinas da graduação é comum que professores e professoras tenham a expectativa de que as alunas desenvolvam suas habilidades de boas leitoras – e repetir os textos lidos é um primeiro e importante ensaio. Uma boa leitora é alguém capaz de dizer o principal argumento das autoras lidas, seus objetivos e principais conclusões. Ou seja: deve-se aprender a repetir.

Essa pode parecer prescrição óbvia, mas nem sempre simples – repetir autoras densas como Judith Butler, Michel Foucault ou Kant pode ser uma tarefa árdua. Existem até livros de comentadores, espécies de manuais para leitoras iniciantes que desejam se aventurar nos escritos de autoras consideradas difíceis. Ler comentadoras pode ser um bom começo, mas é importante lembrar que até mesmo as comentadoras fizeram interpretações a partir dos textos lidos. Isso significa que não vale repetir o que escreveram, por exemplo, sobre um texto de Foucault como se fosse o próprio Foucault.

Dominar o exercício da repetição é um primeiro e bonito passo para exercitarmos o pensamento criativo. Seguindo à risca esse pensamento, meu conselho para as escritoras iniciantes seria: repita, repita, repita – mas sempre citando as fontes.

Mas é importante lembrar que repetir não é o mesmo que copiar e colar. Uma boa paráfrase não é um simples resumo do dito por outro que veio antes de nós. É também ler e pensar sobre o lido. Após dominarmos a escrita pela repetição estaremos prontas para dar o segundo passo: sentir as mãos e dedos coçarem para ensaio da criação. Mas esse é assunto para outro post...

Uma boa leitora pode tornar-se boa escritora? Confira o podcast:


domingo, 8 de maio de 2016

Citar ou parafrasear, eis a questão

Já sabemos: para repetir autores que nos antecederam, das duas, uma — ou citamos literalmente, ou parafraseamos. Na primeira opção, fazemos uma transcrição do texto, tal qual o original. Na segunda, criamos um novo texto: este equivale semanticamente ao original, é fiel a ele, mas responde por si. Tem sentido completo e estrutura gramatical própria, e não requer a presença da fonte citada para ser compreendido.

Mas quando usar cada recurso? Quando é razoável transcrever o texto, isto é, copiá-lo sob a autorização das aspas, e quando é mais recomendado parafraseá-lo, ou seja, resumi-lo com outras palavras? Simples: a norma em escrita acadêmica é a paráfrase. Nosso grande exercício para nos tornar autores, aliás, consiste justamente em ler fontes bibliográficas e repeti-las, o que requer capacidade tanto de apreensão dos argumentos como de síntese.

Já a citação literal reserva-se a ocasiões especiais; por exemplo, quando a forma como o autor escreveu é importante; quando se visa corroborar ou refutar as próprias palavras usadas pelo autor; ou, ainda, quando o autor escreve de tal maneira que não se poderia repetir suas afirmações em termos diferentes. Para essa citação, é preciso pedir licença e tocar as trombetas, estender o tapete vermelho que anuncia voz alheia em texto próprio. Veja, no infográfico que acompanha este post, como decidir entre a citação literal e a paráfrase.


Resumo da ópera: há três situações para as quais serve a citação literal. Para todas as outras, existe a paráfrase. Dúvidas sobre como parafrasear? Reveja este post. Você pode também escrever para nós: palavrasescondidas@anis.org.br.
Veja aqui a transcrição do áudio.

domingo, 24 de abril de 2016

Se tem pressão, tem plágio?

A interrogação que inaugura este post é sobre uma intuição comum, a de que o plágio resulta da pressão por publicar. A equação seria simples: pressa contemporânea mais avaliações quantitativas é igual a má-conduta na publicação. Se é verdade que os pesquisadores têm mais vantagens acadêmicas quanto mais extenso for seu currículo de publicações, também é fato que o tempo para pesquisar, escrever, publicar produtivamente não é o mesmo do mundo ideal. A saída? Segundo o pressuposto que exploramos aqui, tornar-se autor convidado ou presenteado, repetir-se em publicações-salame ou autoplágios, ou mesmo plagiar. Na luta pela sobrevivência, o pesquisador se veria vítima das circunstâncias. Será?

Tictac (Daniel Novta, 2011)
Como conversa e controvérsia se movem por evidências, hoje nossa discussão contrasta dois artigos sobre fatores capazes de macular a integridade acadêmica. A eles:

Em 2014, Joeri Tijdink, Reinout Verbeke e Yvo Smulders publicaram os resultados de um questionário aplicado a 315 pesquisadores médicos em Flandres, na Bélgica. O tema era a associação entre pressão para publicar, avaliada como “muito alta” por 72% dos respondentes, e más-condutas acadêmicas autodeclaradas, tais como falsificação e fabricação de dados, autoria presenteada (alegada por massivos 69% dos participantes da pesquisa) e plágio. O estudo, segundo o qual 15% dos pesquisadores afirmaram ter fabricado, falsificado, plagiado ou manipulado dados nos três anos anteriores, trouxe duas conclusões que chamam nossa atenção: a de que, quanto mais jovens e novos na carreira, maior é o índice de más-condutas entre os pesquisadores médicos europeus; e a de que a demasiada pressão pela publicação de artigos leva à má-conduta. O raciocínio recorre à psicologia do fenômeno: pressão gera estresse, e este induz ao comportamento arriscado. Voltando a falar em equações, aqui diríamos que pressão mais estresse é igual a falta ética.

No ano seguinte, Daniele Fanelli, Rodrigo Costas e Vincent Larivière apresentaram os resultados de um estudo retrospectivo, entre informações sobre autores e peças bibliográficas retratadas ou corrigidas de 2010 a 2011, para verificar hipóteses comuns sobre que fatores poriam em risco a integridade em ciência. O estudo recuperou, da base Web of Science, 611 artigos retratados e 2.226 artigos corrigidos, os quais correspondiam a um total de 47.890 autores. Sua conclusão opõe-se à de Tijdink, Verbeke e Smulders: não foi encontrada correlação significativa entre pressão para publicar e prejuízo à integridade — há menor ou igual possibilidade de retratação em países onde carreiras individuais e financiamentos a instituições são estimulados pelas métricas bibliográficas. Na verdade, fatores como ausência de políticas nacionais de integridade acadêmica e inexperiência do pesquisador mostraram-se mais relevantes. A chance de retratações é menor em países com políticas e infraestrutura para lidar com más-condutas; além disso, autores em início de carreira têm maior chance de assinar artigos retratados.

Desenhos diferentes, resultados também. Se houve convergência entre os achados de ambos os estudos, foi a noção de que principiantes na carreira de pesquisadores são mais tendentes a falhar. E é verdade, talvez o pai do erro seja, muitas vezes, a ignorância das regras acadêmicas, por isso é preciso sempre orientar, capacitar estudantes, pesquisadores e professores — como dizemos por aqui, sair do silêncio e do tabu.

Quanto à pressão por publicar, os resultados são díspares, mas não nos impedem de problematizar essa suposta relação de causalidade. Como assim? Há pesquisadores muito produtivos que não recorrem ao plágio para engordar suas métricas bibliográficas. E, por outro lado, o plágio é coisa antiga, pois já acontecia desde tempos muito anteriores à pressão. Uma coisa não implica obrigatoriamente a outra. Não é que não haja pressão: ela existe, mas seus efeitos podem ser bem mais diversos que o equívoco ético. Por isso, acreditamos que não: se tem pressão, não necessariamente vai ter plágio ou outras más-condutas, pois para havê-los é preciso mais do que pressa. Existe um ingrediente de desonestidade no plágio, ou talvez de profunda ingenuidade, que não podemos negligenciar.

Mas resta uma pergunta: se é mito que o publish or perish causa o malfeito, por que se recorre tanto a ele como explicação para o escândalo? Fanelli, Costas e Larivière arriscam uma resposta em seu artigo, mas queremos também ouvir você. Diz aí.

No podcast de hoje, falamos de tempo e escrita. Como sobreviver à pressão por publicar?


Leia aqui a transcrição do áudio.
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