domingo, 19 de fevereiro de 2017

Roube como um artista

Nas próximas semanas falaremos sobre um livro divertido e que à primeira vista pode até parecer tolo, mas se olharmos atentamente, podemos também encará-lo como uma leitura preparatória para o ensaio do pensamento crítico sobre metodologia e criação. O livro é Roube como um artista: 10 dicassobre criatividade, de Austin Kleon. Se o título bem-humorado pode parecer um elogio ao plágio, não se enganem: o livro é mais sofisticado que parece.
Será pouco provável que na livraria o livro esteja em estantes de metodologia científica, mas acreditem: este livrinho supostamente despretensioso pode servir de fôlego para as jovens pesquisadoras e estudantes que enfrentam o momento da escrita de projetos de pesquisa, dissertações e teses de doutorado. “Roube como um artista” e “Não espere até saber quem você é para começar” são os dois primeiros capítulos do livro. Os capítulos já soam como slogans e convites para a reflexão sobre os lugares que decidiremos ocupar no ensaio na criatividade
Para Kleon “nada é original” – essa provocação é uma tentativa de livrar as jovens almas do peso da existência de uma suposta originalidade completa. Saber quem nos influencia e nos deixar influenciar por aquelas que admiramos e conquistaram seu lugar ao sol antes de nós é um primeiro passo para construir novas ideias.  “Você será tão bom quanto as coisas com as quais você se cerca”, disse Kleon. Para ele o trabalho de um artista é colecionar, mas este não deveria ser confundido com o trabalho de uma acumuladora. A colecionadora escolhe ideias e fontes das quais se interessa e é a partir de sua coleção que começará a se deixar influenciar. Se a colecionadora seleciona, a acumuladora coleciona indiscriminadamente.
Ou seja, nós iniciaremos nossos estudos em profundidade sobre determinados temas e conceitos ao mesmo tempo em que colecionamos ideias sobre autoras e teóricas que admiramos. A provocação de Kleon faz sentido, ao menos para mim. Começar copiando alguém não é o mesmo que plagiar, “plágio é tentar fazer o trabalho de outro passar por seu. Copiar é engenharia reversa”, disse Kleon. Nesse sentido a cópia não seria de palavras, frases ou orações – mas de estilo, pensamento, formas de olhar o mundo.

Mas Kleon nos atenta para algo importante – ele disse: “em algum momento, você terá que passar da imitação dos seus heróis para a emulação deles”. Ou seja, teremos que dar um passo adiante e transformar a cópia em criação. É nesse sentido que o título do segundo capítulo pode ser entendido também como um conselho – é no ato de criar que descobrimos quem somos. E para isso só há uma saída: começar.

Kleon, Austin. Roube como um artista. Rio de Janeiro: Rocco. 2013.

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