O tema de hoje é inspirado em uma inquietação que
recebemos de uma jovem pesquisadora, mas certamente ela não está sozinha. Após
escrever um projeto para seleção de mestrado, se deparou com o seguinte dilema:
Percebi que algumas citações indiretas do
projeto deveriam ser citações diretas, pois há trechos com as mesmas palavras usadas pelo autor citado. Isso pode me desclassificar?
No limite, a desclassificação da candidata na seleção
seria possível, pois ainda com a inclusão do autor/ano o esquecimento das aspas
poderia lhe render uma acusação de plágio, mesmo que não-intencional. Nesse
sentido, a distração da escritora ou o desconhecimento das regras de
comunicação científica não poderão ser desculpas para justificar o mal-uso das
normas de pontuação na escritura acadêmica.
Por que um simples esquecimento das aspas poderia
gerar medida tão drástica? Uma das respostas possíveis está localizada na
diferença entre citação direta e paráfrase.
Já falamos por aqui e aqui das citações e seus diferentes
usos na escritura acadêmica. A paráfrase é um texto secundário, nesse sentido, há
autoria sobre o texto lido. Se as aspas estão ausentes no texto, uma leitora esperaria que o trecho lido não se trata de uma simples cópia do original, mas
uma releitura com expectativa de autoria. No entanto, quando citamos uma fonte
para informar nossas rotas literárias, algum modo, o texto terá semelhanças à fonte original. Isso significa que numa paráfrase
damos as rotas das autoras que seguimos para construção das afirmações, mas a
responsabilidade sobre o dito não será da autora original. Uma leitora atenta
poderá perseguir nossa rota de autoras e colocar em xeque as afirmações
parafraseadas, caso ultrapassem os limites do que poderia ser compreendido como
uma interpretação razoável do lido. Por isso, a citação das autoras lidas deve
ser regra básica para o exercício da integridade acadêmica.
Diferente da paráfrase, em que há expectativa de
autoria, a citação literal é cópia do lido. E por isso as aspas são tão
fundamentais – elas podem ser compreendidas como um sinal de alerta às leitoras.
Em A Arte da Pontuação, Noah Lukeman (2005) descreve as aspas como "o sinal mais visível" (:119): seriam as trombetas do texto. Elas abrem e fecham o
trecho forasteiro, ou seja, avisam a leitora o começo e o fim das palavras
ditas por outras autoras diferentes de nós. Por ser a cópia de um trecho lido
devem trazer autoria, ano e número da página.
Se na citação direta devemos indicar a página do texto
copiado, na paráfrase não esperamos encontrar a indicação da página lida. Pois
para elaborar uma paráfrase lemos muito mais que escrevemos: uma obra, um
capítulo ou ao menos uma dezena de páginas foram lidas e estudadas para a
escrita do trecho parafraseado. A paráfrase, portanto, é um dos principais
espaços para o ensaio da escrita autoral. Por isso, não se descuide das aspas –
se elas não estão no texto há uma expectativa de que aquele trecho deveria ser
seu.
Você também poderá conferir o podcast aqui:
Lukeman, Noah. A Arte da Pontuação. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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