domingo, 4 de setembro de 2016

A resenha e a escritura acadêmica


A escrita será parte da rotina de uma estudante e jovem pesquisadora em diferentes momentos de sua trajetória acadêmica. Durante a graduação as estudantes provavelmente farão exercícios em sala de aula, controles de leitura e trabalhos de conclusão de disciplina. Nem todas decidirão seguir uma pós-graduação após se formarem, mas para concluir a graduação a maioria terá que enfrentar a escritura de uma monografia – ao menos nos cursos das ciências sociais esse é um cenário comum.
Uma tática de sobrevivência que muitas recorrem durante o semestre letivo é o de escrever textos para a conclusão das disciplinas sem a leitura de colegas ou uma revisão após a primeira escritura. Durante a graduação geralmente escrevemos trabalhos finais de disciplinas na véspera, reunindo um compilado de tudo o que lemos durante o semestre. Claro que há diferenças entre um texto escrito como exercício para concluir uma disciplina e um texto escrito para se tornar público. Mas essa rotina da escritura feita em um só folego sem revisão ou reescritas acaba gerando a expectativa de que um bom texto é aquele escrito de uma só vez. Nesse sentido, um texto revisado por uma professora ou monitora acaba se transformando para muitas estudantes em sinônimo de um texto ruim, um fracasso.
Durante a escrita da monografia, por exemplo, sugerimos que o seu rascunho seja reescrito após a leitura e releitura do grupo de leitoras. Receber críticas de nossos primeiros escritos é um grande privilégio. Nenhum texto nasce pronto – duvidar das primeiras versões durante o processo de escritura de um texto acadêmico nos parece uma estratégia muito interessante para encarar o rascunho como parte fundamental de qualquer exercício de escritura.

Não sei se conseguiremos acalmar os corações de uma jovem escritora, mas acreditem: todo texto começará com rabiscos, para se tornarem rascunhos para só depois se transformarem em textos finais. Já falamos por aqui sobre a importância de formamos comunidades de primeiras leitoras – pequenos grupos de colegas que lerão nossos rascunhos. E vejam que o que entendemos por rascunhos não são os primeiros rabiscos. Os rascunhos são os textos já reescritos – é a escritura intermediária, mas ainda sem leitoras. Diferente dos rabiscos que não deveriam ser compartilhados, pois seriam uma versão ainda muito inicial, os rascunhos são como a primeira versão de um texto para ser circulado entre esse pequeno grupo de leitoras. É esse pequeno grupo que dirá se o que escrevemos faz sentido, se as leitoras forem generosas farão críticas, sugerirão alterações e comentarão muito, muito mesmo.  Quanto mais um texto for lido, relido e criticado mais forte será após sua revisão. E mais fortalecidas estaremos para o debate público, caso seja publicado.

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